Os Não Lugares de Gaël Faye
Os Não Lugares de Gaël Faye
Em seu livro de estreia, o rapper franco-burundinês revê a própria história pelos olhos de um menino de 10 anos.
“Ainda me pergunto quando eu e meus amigos começamos a ter medo.”
Por Jonatan Silva

A história do rapper Gaël Faye confunde-se com a do pequeno Gabriel, de 10 anos, o protagonista de Meu pequeno país, seu livro de estreia. Confunde-se, mas não é idêntica. O romance surgiu para que o cantor pudesse dizer coisas que já não cabiam mais nas canções, para que falasse de sensações e sentimentos com uma intimidade e uma profundidade paradoxais, impossíveis de encaixar entre as batidas e os samples de sua música.
Em Meu pequeno país, enquanto Burundi sucumbe ao caos político e social, Gabriel vive confortavelmente com seus pais — um empresário francês e uma cidadã ruandesa — e Ana, a irmã três anos mais nova, em um bairro nobre de Bujumbura, a maior cidade do país. E, à medida que a segurança no Burundi vai-se esfarelando, com a aproximação de uma guerra civil, Gabriel testemunha a dissolução de sua própria família, o resultado de “um defeito de fábrica no encontro, um asterisco que ninguém viu ou quis ver”.
O garoto e a irmã ficam com o pai, que tenta, a todo custo, deixá-los de fora dos assuntos políticos — algo inútil em uma tempestade de balas, atentados e golpes de Estado. Os conflitos étnicos entre os tútsis e os hutus deflagram uma torrente de mortes que culminam no genocídio em Ruanda. E, mesmo sem pretender ser documental, Gaël Faye registra, com crueza, essa brutalidade, cujo saldo foi de mais de meio milhão de mortos.
Ao mesmo tempo que assiste a tudo protegido, Gabriel precisa, forçadamente, descobrir a si mesmo e amadurecer. E o tempo é curto. Com a mãe longe de casa, o menino passa os dias com as crianças da vizinhança — todas igualmente escondidas atrás de um fino verniz social e diplomático — roubando mangas, tomando cerveja e discutindo olhares sobre o mundo dentro de um Kombi abandonada em um terreno baldio. Há uma mística sobre a infância e o poder das histórias contadas pelas crianças — como uma espécie de teste para os limites entre realidade, imaginação e, claro, interpretação daquilo que se vê e se vive. Aqueles meninos, imersos em suas fantasias e aventuras, são uma réplica dos garotos de Conte comigo, porém em tempos de guerra.
A obra caminha para além das questões de raça e de pátria. No Burundi, Gabriel é descrito como branco pelos dois grupos étnicos que abundam no país. Na Europa, é negro. Quando adulto, questionado a respeito de sua origem pelas mulheres que encontra em aplicativos, denunciado pela “pele caramelo”, Gabriel — um filho típico da guerra — resume: “sou um ser humano”, uma negação de detalhamento que sublinha sua universalidade. A essa altura, já não consegue mais fixar-se em algum lugar, pois “morar significa fundir-se carnalmente à topografia do lugar”. É como se sua pena, o exílio, lhe fosse gravada na pele.
Como seu pequeno herói, Gaël também foi exilado na França e procurou, anos mais tarde, voltar à África, a fim de encontrar algumas respostas. “Eu sempre tive a impressão de que a minha vida me era imposta de fora, de que as minhas identidades eram forçadas pela sociedade ou pela minha família”, disse, “por isso decidi que sou mestiço: metade branco e metade negro. E sinto que escrever me ajudou a descobrir quem eu sou”.

Meu pequeno país, porém, não é um livro apenas sobre a perda da inocência, mas uma busca desesperada por identidade e raízes. Faye não tenta os caminhos óbvios e pacíficos para criar sua narrativa: ele percorre um labirinto histórico para apresentar situações complexas e densas, que chocam ao quebrar o limite entre realidade e ficção. Boa parte dos personagens — que habitam mais que tempos e lugares — é construída a partir de seus silêncios e de questões que parecem banais ou pequenos réquiens morais. Isso porque o olhar de Gabriel não foge à visão de uma criança sobre o mundo e também não consegue escapar às consequências da realidade.
Frodebu. Uprona. Eram esses os nomes dos dois grandes partidos políticos que disputavam as eleições presidenciais em 1º de julho de 1993, depois de trinta anos de um reinado sem interrupção do Uprona. Só escutávamos essas duas palavras o dia inteiro. No rádio, na televisão, na boca dos adultos. Como papai não queria que nos metêssemos em política, eu escutava quando discutiam o assunto em outros lugares.
Quebras de realidade
Ao longo de todo o livro, a política é uma espécie de fantasma que ronda as crianças e que, mesmo tão distante, espreita o momento certo para se aproximar. É uma tensão que, consciente ou inconscientemente, perpassa todo mundo. As rivalidades entre os grupos étnicos se acirram e passam a respingar em todos. Faye cria, lentamente, um cenário de confusão e surpresa, de estranhamento e perigo. O autor constrói duas situações-eco que funcionam como quebras de realidade para Gabriel: a primeira é social; a segunda, política.
O sumiço de sua bicicleta — presente de Natal que ganhou pouco depois do divórcio dos pais — faz o menino e dois empregados, Innocent e Donatien, percorrerem as favelas e a zona rural da cidade, com o propósito de encontrá-la. Enquanto passeia pela periferia, Gabriel se dá conta de que a vida em Burundi está além da rua sem saída em que vive. Nesse tour de force, o contraste entre a pobreza e a hospitalidade salta aos olhos do menino, como se fossem ingredientes incompatíveis, não passíveis de ocupar o mesmo espaço.
No quintal havia uma mulher ajoelhada numa esteira, ocupada em moer o sorgo. Atrás dela, o homem sentado num banco nos convidou a nos aproximar. Era o agricultor. Na minha casa, quando um desconhecido aparece, antes mesmo de dar bom-dia, Papai berra: “O que você quer?”, em tom irritado. Lá, era o contrário; havia um comedimento, uma gentileza. Não nos sentíamos estranhos.
A violência, percebe Gabriel, não é apenas física, mas também estrutural, e está entranhada de forma cíclica e institucionalizada. Adiante, quando visita a família da mãe em Ruanda, a realidade torna-se ainda mais árida. O terror que abriga o conflito entre tútsis e hutus adquire novas nuances. A alegria na casa da tia que recebe o menino, a mãe e a irmã é o oposto do medo que brota para além dos muros e portões. Todos estão ali para o casamento do primo da mãe de Gabriel, Pacifique, homem que, em breve, embarcará para a guerra no papel-mártir de um guerrilheiro utópico e idealista.
Ainda que muito menos sombrio, há um tom kafkiano na forma como Gaël Faye narra o medo que passa a assombrar a família, principalmente a mãe. De sua figura forte e altiva, sobra apenas o corpo físico. É como se a essência e a esperança daquela mulher se esvaíssem quando o genocídio explode em Ruanda. Todos, como no final de O Processo, morrem como cães.

Camadas
Entre tanta carnificina, Gaël Faye, com bastante sutileza, consegue rechear seu livro com um sarcasmo inteligente e coerente. Nas cartas que troca com Laurie, uma estudante francesa da quarta série, Gabriel descreve com ironia e inocência a situação de seu país. “Cada um vê o mundo através da cor dos seus olhos. Como você tem olhos verdes, para você eu serei verde”, diz o menino à amiga, e mais adiante: “no futuro quero ser mecânico para nunca enguiçar na vida”.
A singularidade e a beleza no humor de Faye estão justamente na maneira como o autor explora elementos corriqueiros que passariam invisíveis à maioria. Em outro momento, quando os gêmeos contam sobre como foram circuncisados, é possível rir do olhar infantil a respeito das tradições que abundam o mundo adulto e as construções de mitos. São detalhes que estabelecem um paralelo preciso — e precioso — entre a literatura e o relato. Ao mesmo tempo que o humor esconde os horrores da trama, também os revela.
As inúmeras camadas e texturas que atravessam o livro são elementos que humanizam a narrativa, transformando-a em um realismo dilacerante. Com cuidado e certa dose de ternura, Meu pequeno país é, com frequência, tomado por um tom autoirônico, como se os personagens pudessem olhar para dentro de si. Ao tratar, por exemplo, da relação entre empregados e patrões, Faye se aproxima de Roma, de Alfonso Cuarón, estabelecendo uma aproximação de classes decorrente da convivência e da servidão.
Quando Prothé, o cozinheiro da família, é salvo da morte pelo pai de Gabriel, logo descobre que os custos do tratamento serão descontados de seu salário. “Oramos pelo senhor”, disse o criado. “Não me agradeça”, responde o pai, que, assim como a mãe, raramente é referido pelo nome, ambos tornando-se simplesmente Papai e Mamãe, como se fossem entidades ou representações simbólicas.
Ausência
A África de Faye não é exótica como a de Le Clézio em O Africano. É um retrato simples, elegante e despido das excentricidades que parecem estar sempre à mão na abordagem desse continente ou de seus países. O livro é povoado por pessoas comuns, com seus medos, sonhos, virtudes e vícios.
Por isso, Meu pequeno país lança um olhar sensível sobre o invisível e sobre as diferenças que criam abismos, uma jornada pelo paraíso perdido. A guerra civil é o pano de fundo — doloroso e pesado — sobre o destino de Burundi e Ruanda, um sintoma da colonização europeia sobre a África. A mesma Europa que celebrou a conquista e a divisão dos países africanos rejeitou seus filhos adotivos quando fugiam dos massacres. São dois universos que se cruzam pela História, mas que se repelem pelas histórias. Gabriel é um elo entre ambos, um ponto catártico que busca a capacidade de lidar com tamanho alheamento.
Em Paris, não se sente parte de um “país em paz, onde a cidade tem tantas bibliotecas que ninguém repara”. Ele habita um não lugar, um vão iluminado entre a realidade e a ausência. O livro não leva a dor e o ressentimento que poderia carregar. A narrativa é criada não para ser um acerto de contas, mas para funcionar como uma tentativa de conciliação entre passado, presente e futuro. “No final da escrita”, revela, “senti as coisas como em uma sessão espírita. Senti as velhas sensações, mas já não tinha mais dor”.

Meu pequeno país é, sem sombra de dúvida, um dos mais belos manifestos de sobrevivência já escritos, uma experiência comovente e rebelde para ser saboreada da primeira à última página.

 

Gaël Faye: um homem no exílio
Por Jonatan Silva
Gaël Faye é rapper, cantor, compositor e escritor. Nasceu em 6 de outubro de 1982, na cidade de Bujumbura, a maior cidade do Burundi, onde viveu até 1995, quando o conflito étnico entre os tútsis, que, até então, dominavam o país, e os hutus se acentuou. Filho de pai francês e mãe ruandesa, partiu em exílio para a França — o que, anos depois, disse ser “uma emoção muito forte”.
Deslocado e isolado em Paris, Faye encontrou refúgio na escrita e no hip-hop, primeiro como uma forma de aprender o francês, língua falada na terra de Flaubert, e depois para conseguir libertar-se das marcas deixadas pela guerra. “Eu estava um pouco perdido. Cheguei em um país novo com um clima frio e tudo mudou. E eu comecei a escrever. Não tinha amigos e a escrita se tornou meu primeiro companheiro”, confessou ao jornal The New Times, de Ruanda. Três anos mais tarde, ele compunha a sua primeira canção.
O estalo para que a música talvez fosse uma alternativa verdadeira aconteceu em 2003, quando escreveu A-France, faixa que abriria o disco de 2013, Pili pili sur un croissant au beurre, seu primeiro trabalho após o duo Milk Coffee and Sugar (formado com o rapper Edgar Sekloka) entrar em hiato por tempo indeterminado. “Escrevi essa canção quando era estudante em Lyon. Senti que era algo mágico e disse: quero fazer isso todos os dias.” Durante a parceria com Sekloka, Faye lançou um EP e um álbum, ambos intitulados Milk Coffee and Sugar.
Entre turnês e discos, escreveu Meu pequeno país, romance de estreia cuja história remonta às suas memórias e às significações do que viu e viveu no Burundi. Publicado em 2016, o livro logo se tornou um frisson entre os franceses, vendendo mais de 700 mil cópias e recebendo prêmios importantes, como o Prix du Roman Fnac e o Prix Goncourt des Lycéens. “Eu queria escrever alguma coisa sobre nossa humanidade e covardia. Todos os humanos são um pouco covardes. Gabriel, meu personagem, é, em certa medida, um covarde que quer dizer: ‘esse problema não é meu’ e não quer encarar o mundo real”, reflete, “mas o problema está aqui, é parte disso e deve ser encarado de frente”. Nesse sentido, se, por um lado, Gabriel é covarde, também é inocente, incapaz de sair de sua redoma de vidro.
Em resumo, Meu pequeno país é sobre estar em busca do tempo perdido — como a vontade que as pessoas têm de permanecer crianças. Querer encaixá-lo em qualquer movimento — autoficção, por exemplo, seria tentador — é reduzir sua grandeza lírica e sua pulsão. A ideia desse paraíso perdido já faz parte da construção narrativa de Faye: em Pili pili sur un croissant au beurre, uma das faixas se chama Petit pays e traz versos em kirundi, uma das línguas oficiais do Burundi.
A obra de Gaël Faye — seja musical, seja literária — habita um terreno singular de diálogo e transversalidade. Dividido entre Ruanda e França, foge às respostas prontas às questões que envolvem “residência fixa”. Nesse caminho, que compartilha com a esposa e os filhos, prepara seu segundo livro, ainda sem título definido. O que se sabe, da boca do próprio autor, é que tratará de um rock star. “O livro se passa bem longe de Ruanda e Burundi”, disse. “Eu voltarei lá, mas agora quero fazer algo completamente diferente.”
A literatura é a leitura do mundo e do outro como quem conta um segredo. Em Meu pequeno país, Gaël Faye nos mostra que o grande segredo da vida é não haver segredo algum.

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