Muito além do bem e do mal
Muito além do bem e do mal
É difícil ser Deus, marco da ficção científica, ressoa como uma obra profunda e assustadoramente atual.
Por Jonatan Silva

No clássico de Alexandre Dumas (1802–1870), Os três mosqueteiros — que, na verdade, são quatro —, a elite da guarda real forma uma espécie de entidade autônoma e mitológica, um pequeno esquadrão autossuficiente. Em É difícil ser Deus, Arkádi (1925–1991) e Boris Strugátski (1933–2012) retomam a premissa do autor francês para criar um dos livros mais importantes da ficção científica mundial. Qualquer tentativa de explicá-lo é reducionista e superficial, mas são também especulações que guiam para uma leitura crítica e contextualizada.
Publicado em 1964, no auge da Guerra Fria, É difícil ser Deus finca raízes na paranoia que moldava aquela era polarizada e que, até pouco tempos atrás, parecia ter ficado na história. Expressando em metáforas os horrores do regime de Stalin (1878–1953) e rivalizando a ideia dos Estados Unidos como país soberano — o tal American Dream —, os irmãos Strugátski conseguem trabalhar questões que são fundamentais para se entender o ethos daqueles anos: militarismo, burocracia, bajulação, conformismo, repressão e manipulação. Tudo está lá. “Em parte, isso só foi possível porque seria embaraçoso até mesmo para os censores de [Leonid] Brejnev admitir que aquelas críticas poderiam aludir ao sistema soviético”, explica Ken Leod, “e, em parte também, porque os ideais defendidos pelos irmãos — para a sociedade e para o comportamento moral individual — foram aqueles que a sociedade soviética literalmente inscreveu em suas bandeiras”.
Anton, o personagem central da trama, é uma espécie de agente secreto que, disfarçado como Dom Rumata, viaja ao planeta Arkanar, um Estado fascista e estancado na Idade Média que, em simultâneo, reflete um novo Colombo — ou Cabral, em nosso caso — à procura das Índias. Mas, em verdade, o que ele encontra pode ser tanto um retrato do passado como o oráculo de um futuro sombrio que se assume dia após dia — tão terrível quanto 1984 ou Admirável mundo novo.
Quando Anton, ainda criança, depara com o cadáver do soldado alemão de armas na mão, os irmãos Strugátski já anunciam o colapso moral e social que levaria a Terra à falência de recursos. Se, hoje, testemunhamos a ascensão de um novo obscurantismo, em que livros são proibidos e recolhidos, É difícil ser Deus lida com a ideia de uma civilização cujo povo já está em um estado avançado de decomposição intelectual — algo bastante próximo de Divino amor, longa que apresenta um Brasil dominado pelas religiões neopentecostais. São as duas faces da mesma moeda e que surgem como um Narciso equivocado, apaixonado por uma falsa beleza.
Anton, ou Don Rumata, é esse Narciso. Diante desse abismo, seus pontos de contato com a realidade se reduzem às lembranças e às fragilidades trazidas ao se colocar em frente à própria imagem. Talvez registre com uma bela calda de ficção o mitológico episódio em que Nikita Khruschev (1894–1971) — primeiro-ministro da União Soviética e secretário-geral do Partido Comunista entre as décadas de 1950 e 1960 —, durante uma exposição de arte contemporânea em Moscou, para em frente a uma moldura e, assombrado com o que vê, berra: “O que é essa aberração com orelhas?”. Sem saber como responder, um de seus assessores, diz: “Isso é um espelho, senhor”. São percepções que se constroem e se desfazem em lances de dados, em pequenos momentos de loucura e lucidez, de brilhantismo e apatia.
A luta contra o mal! E o que é o mal? Cada um tem o direito de entendê-lo à sua própria maneira. Para nós, cientistas, o mal está na ignorância, mas a igreja ensina que a ignorância é uma bênção e que todo o mal provém do conhecimento. Para o lavrador, o mal é a seca e os impostos, enquanto, para o comerciante de trigo, a seca é o bem. Para os escravos, a personificação do mal é o dono bêbado e cruel; para o artesão, é um agiota avarento. Então, o que é o mal, Dom Rumata, contra o qual devemos lutar?
E o que pode haver além do bem e do mal?

Quixote
Longe de ser uma experiência dicotômica e meramente superficial, a narrativa dos Strugátski é singular do ponto de vista de sua construção complexa e inventiva. Anton, para além de sua essência narcísica e idealista, é um personagem amplo e que abrange muito mais que o arquétipo de um anti-herói. É um Quixote dúbio, com a certeza da dúvida. Em um primeiro plano, essa arquitetura pode fazer com que Anton/Dom Rumata pareça falho, até mesmo bambo, porém é impossível não notar que é nesse ponto que os autores criam, com uma perfeição ímpar, um homem em colisão permanente.
E essa imagem percorre todo o livro. O primeiro-ministro de Arkanar, Dom Reba, fortemente inspirado em Lavrentiy Pavlovich Beria (1899–1953), braço direito de Stalin na Segunda Guerra, condensa um magistral arregimento. De uma inteligência à la Sherlock Holmes, Reba é tão cruel e voraz quanto o homem segundo o qual foi moldado. Por isso, o mal, muito mais que ações isoladas, é descrito como o ciclo de circunstâncias concebidas para levar a população à ignorância.
Como se vê, a degeneração do e no planeta é tamanha que já não existem crimes de pensamento orwellianos. Nesse imenso xadrez político, pensar não é crime porque já não é mais uma possibilidade, não existe no horizonte rebelde daqueles escravos sociais. “Absolutismo, mosqueteiros bêbados e felizes, um cardeal, um rei, príncipes rebeldes, a Inquisição, tavernas de marinheiros, galeões e fragatas, belezas, escadarias de corda, serenatas etc”, escreveu Boris no posfácio que acompanha a edição americana. “E esse país (uma combinação entre França e Espanha ou entre Rússia e Espanha) onde nossos terráqueos, assim como os comunistas, ‘plantam’ alguém — um jovem, forte, bonito e bom de briga, um excelente esgrimista.”
Em alguma medida, os autores dão vida a um romance sinestésico. O leitor é capaz de sentir tudo o que dá corpo ao texto. Existe, portanto, um quê pop que se encaixa muito bem na ideia de transportar os romances de capa e espada para um mundo em ruínas e cujo único refrão é um catálogo de assombrações e medos.

Fundamental
Se não é fácil ser Deus, ser um mortal é quase insuportável. Para Arkádi e Boris Strugátski, a solução dessa equação macabra é somente uma: o fim das oligarquias que compram o poder ao preço de vidas e mais vidas. E não há tempo para ilusões ou para esperanças fugidias. “Eles nunca estarão conosco”, disse o caçula, “e nunca nos deixarão dizer aquilo que acreditamos ser o certo, porque aquilo no que eles acreditam é o certo e é também completamente diferente”.
O conto “O Fura-greves”, publicado pela primeira vez em 1957, e que faz parte do livro Sonhos de robôs, de Isaac Asimov (1920–1992), é um anúncio do olhar social que integraria todo o corpus da obra dos irmãos Strugátski. No relato bastante breve, o universo entra em colapso depois que os Ragusnik, os únicos moradores do planeta responsável por receber todos os dejetos intergalácticos — e por isso considerados uma subespécie e, portanto, intocáveis, decidem cruzar os braços. O sociólogo Steven Lamorak é enviado para negociar uma rendição. A partir desse contato com um povo isolado e considerado inferior, Lamorak também precisa viver no exílio. Já não é mais digno de viver entre seus semelhantes.
Para os personagens de “O Fura-greves”, e também para aqueles do livro de Boris e Arkádi, estar vivo é um fardo que deve ser carregado. É basicamente a lógica de Nietzsche (1844–1900), no sentido de que o sofrimento é parte da condição da vida, e qualquer derivação contrária a essa imagem parece um gesto inocente. Assim como é inocente pensar a ficção científica como um alheamento, uma literatura a distância. É difícil ser Deus é um mergulho nas idiossincrasias que ainda reverberam e fazem com que esse seja um livro assustadoramente atual.
Da mesma forma, é o universo Noon concebido pela dupla, a partir de 1961, com Noon: 22nd Century. Com a vitória do comunismo — no oposto d’O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick (1928–1982), em que os nazistas haviam vendido a guerra —, a Terra é o planeta mais desenvolvido, dono de tecnologias que eliminam o trabalho braçal e permitem viagens interestelares. Já não existe mais um governo, mas um modelo de anarquia institucional e meritocrática que impede a criação de forças policiais e exércitos. Sob essa camada fina de organização, os Strugátski conjugam as imprecisões de uma liberdade aparentemente plena. É um jogo de espelhos que reflete a hipocrisia e a banalidade do mal, que coloca em xeque as percepções individuais e brinca com a ideia de equilíbrio e mecanicismo.
Se, por um lado, as máquinas são capazes de fazer a maioria dos trabalhos, não seriam também os humanos meras peças nessa grande engrenagem, reduzidos a peças falsamente autônomas? Ao que conjecturam os autores, sim. É o “faça o que tu queres, pois é tudo da lei”, de Aleister Crowley (1875–1947), em que tudo é permitido, sob a condição de um pretenso jogo sem juiz. Ser livre, então, transforma homens e mulheres em escravos dessa mesma liberdade, justamente porque ela não é conquistada, ou adquirida por meio de direitos, mas artificialmente construída, o que pode levar a uma queda retumbante. Todos são senhores de si e propriedade de outrem.
E tudo isso porque o escravo compreende melhor seu dono, por mais cruel que ele seja, do que seu libertador, pois cada escravo se imagina muito bem no lugar do dono e pouquíssimos se veem como um libertador altruísta. Assim são as pessoas, caro Dom Rumata, e assim é nosso mundo.
Essa ironia delicada e sagaz — que, como lembrou McLeod, ludibriou a censura — permitiu certa atemporalidade. Tamanha engenhosidade, obviamente, gerou certa desconfiança da comunidade ligada ao sci-fi soviético, rendendo acusações de que É difícil ser Deus era um texto escapista, surrealista e pornográfico. “Os vira-latas ideológicos continuariam a latir de seus jardins”, lembra Boris, “[mas] temos que admitir que o livro foi um sucesso. Os adolescentes gostaram da trama envolvente; a intelligentsia, das ideias dissidentes e dos ataques ao totalitarismo.”
Quando o absurdo é a gênese das relações e a insegurança é moeda de troca, a arte é uma urgência, um grito contra o sensacionalismo da virtualização —em todos os sentidos — da condição humana. É difícil ser Deus, passadas cinco décadas, é uma peça fundamental da ficção científica e um livro que merece ser lido pelo valor de sua literatura e como alerta permanente.

Os Filhos do tempo
Os irmãos Arkádi e Boris Strugátski ajudaram a criar o espírito da ficção soviética, fazendo de seus livros testemunhas do colapso e das paranoias que tomaram conta de boa parte do século XX.
Arkádi (1925–1991) e Boris Strugátski (1933–2001) viveram boa parte de suas vidas sob o jugo do regime soviético (1922–1991). O mais velho foi o único sobrevivente de um grupo de evacuados do Cerco de Leningrado, em 1942. Seu pai, que viajava no mesmo vagão, morreu quando chegavam à cidade de Vologda. Pouco depois, ele integraria o exército da União Soviética, primeiro na artilharia e, depois, no Instituto de Línguas Estrangeiras, como intérprete de inglês e japonês.
Enquanto Arkádi abandonava Leningrado, atual São Petersburgo, o caçula permaneceu com a mãe na cidade. Logo após a Segunda Guerra Mundial (1939–1945), terminaria o ensino médio e ingressaria na faculdade de física, que trocaria um pouco mais tarde por astronomia. Ainda na década de 1950, começaria a escrever com o irmão suas primeiras histórias, entre elas a novela From beyond, que seria publicada em 1958.
Muito mais que um arroubo juvenil, a literatura começou para os dois como uma espécie de desafio, de duelo intelectual — algo bastante próximo ao que fariam, quase simultaneamente, os jovens turcos, cineastas da Cahiers du cinéma, que revolucionaram a sétima arte com a Nouvelle vague. “Meu irmão e eu”, disse Arkádi em uma entrevista, “adorávamos ler ficção científica na infância. Eu comecei a escrever ou, mais exatamente, a desenhar tirinhas desse tipo, quando tinha oito anos. Nosso trabalho profissional com o sci-fi começou com uma aposta. Em 1958, quando fazíamos comentários sarcásticos sobre alguns livros bem fracos, lançamos um desafio: “é fácil criticar, dizem, mas tente escrever um [livro] você mesmo”.
Por coincidência ou não, na década seguinte, a ficção científica soviética explodiria. Nomes como I. A. Yefremov (1908–1972), I. I. Varshavsky (1908–1974), A. G. Gromova (1916–1981) despontavam no gênero. Em alguma medida, os Strugátski representavam a nova geração de autores e significavam a continuidade dos trabalhos. Os anos 1960 marcaram a chegada do homem à lua, mas também simbolizaram o auge do comunismo e a soberania da União Soviética sobre os países a ela anexados. A Berlim soviética estava longe da ruptura que resultaria na queda do muro, trinta anos mais tarde.
Ao mesmo tempo, a Guerra Fria entrava em ebulição, e a ameaça contínua de uma bomba nuclear dava vazão à imensa paranoia que permitiu a caça aos comunistas nos EUA — e a famosa lista dos proscritos de Hollywood — e a sequência de golpes militares na América Latina, começando com o Brasil, em 1964. “Para nós, o comunismo é um mundo de liberdade e criatividade, enquanto, para eles, uma sociedade em que as pessoas imediatamente e com prazer fazem as vezes de todas as prescrições do partido e do governo”, escreveu Boris no posfácio da edição norte-americana de É difícil ser Deus.
Entre a pantomima e a verdade, existem a dor e a frustração, como sintomas de uma abstração aguda. E é possível notar isso na maioria dos trabalhos que fazem parte do Universo Noon ou mesmo em Piquenique na Estrada, publicado em 1972 e transformado no longa Stalker, lançado em 1979 por Andrei Tarkovski (1932–1986), considerado por muitos sua obra-prima e cujo roteiro foi escrito pelos próprios Strugátski.
Ainda assim, e apesar da suprema importância dos irmãos Strugátski para a formação da ficção científica soviética — transformando seus livros em testemunhas dos medos que acompanharam o mundo no século XX —, poucas foram suas obras publicadas no Brasil. Infelizmente, somente o livro Prisioneiros do poder (1967) ganhou uma edição brasileira, em dois volumes, pela Livros do Brasil, em 1983. E mais tarde, em 2017, a Aleph publicou Piquenique na estrada. Os leitores portugueses contaram com um pouco mais de sorte e tiveram à sua disposição um catálogo um pouco maior, mas que nem de longe compreende a bibliografia de Arkádi e Boris.
Por isso, essa edição de É difícil ser Deus, é um marco: primeiro, porque é traduzida diretamente do russo e, depois, por marcar a volta de uma literatura intensa e urgente para as livrarias brasileiras.

Arkádi & Boris Strugátski
Arkádi & Boris Strugátski
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