Marcas de nascença: carta à mãe
Em romance habilidoso e pungente, o escritor holandês Arnon Grunberg esmiúça as contradições na tentativa de uma simples vida em família.
“Uma pessoa não deve cultivar as perdas”
Arnon Grunberg
Por Jonatan Silva

“Você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você”, escreveu Kafka (1883–1924), aos 36 anos, na famosa carta que nunca enviou ao seu pai. “Como de costume, eu não soube responder, em parte justamente por causa do medo que tenho de você.” É também a partir de uma tumultuosa relação entre mãe e filho que o escritor holandês Arnon Grunberg ergue seu monumental romance Marcas de nascença, uma investigação literária sobre poder e devastação, medo e domínio.
Aos quarenta e tantos anos, Otto Kadoke — que ora atende também por Oscar — é um psiquiatra que trabalha na emergência do serviço de saúde e cujos pacientes, em sua maioria, são potenciais suicidas. Vivendo em um mundo flutuante de instabilidade e insegurança, ele carrega os fardos de nem sempre conseguir impedir o pior e de estar longe de ser aquilo com que os pais sonharam. Em paralelo, acumula um catálogo de desastres amorosos — um casamento destruído e alguns enlaces rápidos com as residentes do hospital. Sem exagero, Grunberg faz de Kadoke um homem no meio do caminho entre Woody Allen e Almodóvar, alguém que até o último suspiro não saberá, ao certo, quem é. A melancolia, afirma logo de cara, é o que dá o tom de sua vida e é, ao mesmo tempo, uma coisa que, de tão familiar, é capaz de trazer certo grau de conforto e consolo.
Em Marcas de nascença, o autor apresenta alguns elementos que são obsessões em sua obra: os conflitos familiares — que aqui residem sob a lápide de um segredo e também da loucura; a relação do homem com o jardim — algo que Grunberg explorou de maneira suntuosa em Tirza; e a arquitetura como uma espécie de simbologia para a solidão e o desassossego — que foi o fio condutor do belíssimo O Homem sem doença.
São caminhos — ou bosques, como diria Umberto Eco (1936–2016) — que dão forma a uma literatura viva, intensa e bastante imersiva, capaz de levar o leitor pelos corações e mentes de gente como a mãe de Kadoke, uma mulher à beira de um ataque de nervos, mas que também encarna a representação caricata e bem medida da mãe judia, como uma espécie de síntese do ser humano em sua condição. Isso explica o porquê, por exemplo, a mãe não tem nome: é apenas, e tão somente, mãe.
Marcas da violência
Se alguns escritores — como Philip Roth (1933–2018) e Paul Auster — fazem de seus protagonistas verdadeiros arquétipos que percorrem toda a sua obra, Arnon Grunberg escolhe o caminho contrário. Otto Kadoke é, por exemplo, a antítese clara de Jörgen Hofmeester, de Tirza. Quando ambos são expostos à violência, o escritor consegue delimitar muito bem o que existe de diferente entre os dois. Se o primeiro é recessivo e submisso, o outro não se deixa domar pelo instinto e tateia às escuras — e sem medo — até onde consegue ir.
Por outro lado, o psiquiatra é exposto a tantas violências, todos os dias, que as vê com indiferença e normalidade, como algo intrínseco à natureza humana. São pessoas tentando tirar a própria vida, a indolência de um sistema que, em sua essência, dá as costas ao diferente, ou uma mãe que, a despeito de todo amor, tem dentro de si uma dinamite pronta a explodir ou ainda são os imigrantes que, diante do avilte, não podem fazer outra coisa senão usar a força física. A violência, nesse sentido, não é um meio para se atingir uma coisa qualquer, mas a reação final de uma bancarrota emocional.
Por isso, pode-se dizer que tudo em Marcas de nascença são espelhos partidos de idealismo e hipocrisia, uma estratégia bastante ousada em um momento polarizado e delicado como este que vivemos. “A maioria das pessoas é civilizada demais para ser capaz de usar violência”, disse Grunberg em entrevista ao jornal Rascunho. “Por outro lado, a questão de sermos capazes de violência e em que momento iremos usá-la é uma das maiores questões, um dos maiores problemas de nossas sociedades.”
Grunberg, assim como Michel Houellebecq, o enfant terrible da literatura contemporânea, esmiúça as fragilidades, explora os contrapontos e o cinismo que se esconde sob o verniz da educação e das convenções sociais. Ainda que o tom do holandês seja muito mais polido e dominado — no sentido de frases construídas como uma arquitetura bastante planejada —, ao passo que o francês busque sempre a radicalização e as últimas consequências de atos banais, existe um ponto de contato entre o conjunto da obra de ambos, que é a necessidade de demolir o status quo.
É por meio das imagens díspares que os dois dão vida às existências complexas e, ao mesmo tempo, comuns de seus personagens. São sempre situações-limite que oferecem ao leitor uma ideia ampla das possibilidades que o absurdo pode tomar.
Diáspora
Marcas de nascença não é um romance sobre revelações ou revoluções, mas um único lance de dados do destino consegue criar uma verdadeira reviravolta na vida morna de Kadoke. Quando tenta se envolver com Rose, a cuidadora nepalesa de sua mãe, de repente o psiquiatra se vê jogado no vazio, colocado em uma posição incômoda e, praticamente, incontornável.
É para essa diáspora pessoal que Grunberg escreve o livro. Sem ninguém para tomar conta da mãe, é ao filho — “o paizinho”, como a mãe gosta de chamá-lo, em uma mistura tênue de afeto e ilusão — que cabe a tarefa. Para cumprir suas obrigações, muito mais morais que sentimentais, Kadoke precisa se mudar, deixar para trás sua vida de homem independente e capitular, mais uma vez, à família.
Grunberg é um expert em construir um labirinto emocional para seus personagens, enclausurando-os à própria sorte. Em cada capítulo, existe um jogo de memória e de passos em falso, como se houvesse qualquer possibilidade de extrair um saldo positivo de uma vida como a de Sísifo. “Se o meu filho nem nasceu”, diz a canção, “eu ainda sou o filho”. Dali em diante, seria preciso ser mais de um, mas essa opção só existe em segredo — não se podem falar certas coisas.
A vida dupla é a regra, não a exceção. Tem certeza disso ali parado em frente ao pronto-socorro, olhando para o estacionamento. Desejos alheios o confrontam com seu fracasso, que, no fim das contas, é o cerne da existência humana. Isso, ele nunca diria em voz alta perto de seus colegas, soaria filosófico demais, mas é exatamente essa sua maior objeção contra o suicídio: o suicídio põe fim à possibilidade de fracassar.
Kadoke percebe que agora não existe mais alternativa. A vida se torna uma via de mão única, um caminho sem volta. Será preciso viver — e deixar viver — enquanto for possível. À sombra de uma mudança, nada se altera em Marcas de nascença.
Quebra-cabeça
Quando Kadoke conhece Michette, uma moça de pouco mais de trinta anos que se automutila, cria-se uma estranha combinação — como um quebra-cabeça que se completa não pelo encaixe das peças, mas pela força empenhada em acoplá-las. Ainda que a paciente seja ela, é o psiquiatra o mais vulnerável, aquele que realmente precisa de alguma ajuda. Para tentar salvar os dois, ele a leva para sua casa. Sem ninguém para cuidar da mãe, caberá a Michette se refazer ao testemunhar a decrepitude de uma pessoa diante do abismo.
Mesmo que queira escapar, Kadoke não consegue abandonar a figura de Humbert Humbert — o polêmico personagem de Lolita, de Nabokov (1899–1977) —, que toma para si, ou melhor, de Priklopil, o homem que sequestrou Natascha Kampusch e a manteve sob tortura e abuso por quase uma década.
A essa altura, Michette pode significar a tábua de salvação e de perdição para um homem como Kadoke. Se não há volta, só resta seguir em frente, mas não existe um manual que possa indicar minimamente o que fazer. Assim como a carta de Kafka jamais entregue, a remissão dos pecados de Kadoke também é uma mera mentira na qual ele próprio finge acreditar. E, assim, o psiquiatra define sua relação com a paciente:
“Você não precisa me dar amor. Não estou interessado em transações; se estivesse interessado nisso, teria escolhido outra profissão. A única coisa que espero de você é que cheguemos a um acordo sobre alguns princípios básicos para sua permanência aqui. E, na minha opinião, vamos conseguir. O que eu posso prometer é que não desistirei até que sua vontade de morrer tenha diminuído a ponto de não incomodá-la mais. Não chamaria isso de transação; é, no máximo, uma convicção, ou uma ferida aberta, a diferença entre as duas últimas é mínima.”
Marcas de nascença, como os outros romances de Grunberg, explora a imperfeição e tudo o que pode parecer, mesmo que superficialmente, fora do eixo. Pouco a pouco, Michette se torna também parte da família, talvez o único elo realmente forte da corrente. Se, por um lado, existe uma instabilidade emocional abismal, por outro se forma uma placidez genuína, uma engrenagem que já não quer mais parar de funcionar.
“Famílias são conceitos extremamente difíceis de união, precisamente porque não sentimos que fugir é impossível”, comenta Grunberg. “Podemos fugir, e isso torna trágico o conceito de família”. A colcha de retalhos que dá forma às famílias parece formar-se a partir do vazio, como se fosse possível criar um laço cujo centro é o nada. De alguma maneira, essa questão percorre a obra de Arnon Grunberg como uma tentativa — que jamais se realizará — de entender, de uma vez por todas, o que ainda é capaz de unir as pessoas e fazer com que uma mão invisível as apoie, para que não dancem no campo minado.
A narrativa de Marcas de nascença é um retrato real de um vidro estilhaçado pelo medo, pelas memórias e pelo futuro, em uma história urgente, necessária e bela. Ao colocar o dedo na ferida, o escritor se debruça sobre campos delicados e densos, que muitas vezes estão escamoteados sob um falso equilíbrio, passível de se romper rapidamente. Sem dúvida, Arnon Grunberg se confirma como um dos autores mais interessantes e habilidosos, capaz de transformar a dor em uma obra-prima sem igual.

Arnon Grunberg: o filho do Holocausto
A literatura de Grunberg é um exercício de investigação, uma busca perpétua pela cicatrização de feridas e pela recomposição de um mundo são.
Por Jonatan Silva
Arnon Grunberg é um sobrevivente do Holocausto. Não fisicamente, mas a memória da chacina nazista, que matou seis milhões de pessoas, faz parte da história de sua família. Sua mãe, uma imigrante alemã judia, esteve entre os confinados no campo de Auschwitz. Essa experiência, de dor e luto perpétuos, percorre a obra do escritor holandês, mas talvez só tenha se acentuado no magistral Marcas de nascença — que você agora tem em mãos.
Nascido em Amsterdã, em 1971, Grunberg é considerado um dos mais importantes escritores europeus contemporâneos. Seu romance Tirza (2005), publicado pela Rádio Londres em 2015, figurou ao lado de Sábado (2005), do britânico Ian McEwan, como um dos livros necessários para se entender a primeira década do século XXI.
Desde o seu livro de estreia, Amsterdã blues (1994), vencedor do Anton Wachter Prize, Grunberg chamava a atenção por apresentar um mundo picaresco, em que o absurdo ganha contornos fortes e realça a ideia de não pertencer a lugar algum. Ali, nascia também uma das obsessões literárias do autor: a complexidade das relações familiares. De forma irônica, Grunberg só conseguiu publicar seu primeiro livro depois de ter fechado sua própria editora, a Kasimir, um ano antes.
A literatura de Grunberg — assim como seu trabalho como jornalista literário — é um exercício de investigação, uma busca pelo Santo Graal cotidiano. Livros como Dor fantasma (2000) — em que narra a história do escritor holandês Robert G. Mehlman, um sujeito inventivo e inconsequente — e Het bestand (2005) — cujo cerne é, na verdade, uma espécie de experiência científica em que o próprio autor era monitorado enquanto escrevia — oferecem uma dimensão interessante do limite que separa sua literatura de um ensaio ficcional.
Em alguma medida, seu fazer literário, por assim dizer, é um exercício sobre a realidade ou a ideia do que ela pode ser. “A literatura busca a verdade; senão, eu iria procurar outro trabalho”, disse certa feita. “Não é só a verdade que a literatura busca, ou seria a filosofia, mas a verdade é importante.” Isso explica, por exemplo, sua escolha por um jornalismo em que o mergulho é parte fundamental da construção da notícia, seja ao acompanhar as tropas holandesas no Afeganistão e no Iraque, visitando a prisão de Guantánamo, em Cuba, seja escrevendo sobre pacientes em uma clínica psiquiátrica na Bélgica.
Parte do seu trabalho como jornalista está reunido no livro Chambermaids and soldiers (2009), publicado no mesmo ano em que lançou o polêmico romance The Jewish messiah, que, entre outras coisas, narra a história de um judeu que ajudou a traduzir Minha luta, de Hitler, para o iídiche, língua de origem germânica adotada pela comunidade judaica.
Mesmo sem causar a mesma polêmica que Philiph Roth (1933–2018) ao publicar seu primeiro livro, Adeus Columbus (1959), houve frisson ao ver assuntos delicados sendo tratados com humor e ironia. Anos mais tarde, Martin Amis passaria por algo semelhante, com Zona de interesse (2014).
“Ser humano significa também estar consciente das sensibilidades de outras pessoas. Um romance é um veículo complexo, diferente de um editorial — literatura e arte em geral existem, entre outras coisas, para brincar com tabus”, comentou Grunberg ao jornal Rascunho, ao ser questionando sobre o perigo de o politicamente correto ser um elemento castrador da criatividade.
A questão da identidade não está presente somente na literatura do escritor, mas parece um fato de seu próprio cotidiano. Morando em Nova York desde 1995, Grunberg, em um texto escrito para o Guardian, afirmou que foi preciso deixar a Holanda para se sentir verdadeiramente europeu. Na prática, o oposto — de que é impossível ser integralmente um habitante do país que o acolhe — também é verdadeiro. “Viver em Nova York me fez ver que eu nunca seria capaz de me tornar um norte-americano, embora eu possa ser um cidadão norte-americano um dia”, afirmou em conversa com o portal A Escotilha.
Sem sombra de dúvida, Grunberg é um retratista dos nossos tempos, alguém capaz de apontar caminhos e olhar com inteligência e alguma frieza, graças a uma narrativa afiada, para as erosões que se abrem diariamente e que colocam a todos em lados contrários desse grande ringue.

 

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