Dançando no vazio
Dançando no vazio
Em O imitador de homens, Walter Tevis investiga a solidão de personagens perdidos em um mundo altamente tecnológico e sintético.
Por Jonathan Silva

Em sua obra máxima, Fahrenheit 451 (1963), o escritor norte-americano Ray Bradbury (1920–2012) recriou os limites da relação entre homens e livros, a partir de uma investigação política e social. Dezessete anos mais tarde, o californiano Walter Tevis (1928–1984) ressignificaria esse pacto secreto com O imitador de homens, que acaba de ganhar sua primeira edição brasileira. Se, em Bradbury, a literatura é um escape da realidade — uma fuga ao absurdo do regime totalitário —, para Tevis as letras são a única possibilidade de libertação, um retorno à essência do ser humano.
Tevis constrói uma sociedade sintética, em que a humanidade praticamente já não existe mais, e os androides dão forma a qualquer coisa que se possa chamar de população. Ainda que Nova York permaneça a mesma — os prédios, os ônibus e tudo aquilo que dá vida à metrópole (à exceção das pessoas) continuam lá —, O imitador de homens é inovador ao propor — e proporcionar — a materialização da terra devastada, um apocalipse silencioso e tecnológico, como se fosse possível inventá-lo por meios de processos mecanicistas.
Como Philip K. Dick (1928–1982), em Androides sonham com ovelhas elétricas? (1968), que, anos depois, seria adaptado para o cinema em Blade Runner (1982), Tevis oferece ao leitor um herói vacilante, alguém consciente de suas fraquezas e imperfeições. Se o Deckard de Dick é o homem-limite, o sujeito entre a carne e a máquina, o Bob Spofforth de Tevis é a representação máxima da desumanização e da supremacia de um mundo binário sobre a natureza. É a consolidação do fim como única e exclusiva alternativa.
Diante do assombro, Spofforth — o mais avançado dos androides, os Make Nine, e reitor da Universidade de Nova York — tenta, ritualisticamente, dar fim a si mesmo, mas é sempre impedido por seu sistema operacional. Mais uma vez, o mundo binário sobrepõe-se à natureza. Entretanto, a experiência recorrente do suicídio, mesmo que falha, burla, na medida do possível, a ideia totalizante da engenheira perfeita.
A simples noção de um sentido para o fim é capaz de romper com a personificação de dominador e dominado. Em vez de fazer de Spofforth um demiurgo, Tevis usa seu personagem como um anjo caído, um retrato humanista da frieza robótica. Nesse sentido, O imitador de homens, para além de um olhar distópico, é também uma investida pessoal do autor, um jogo íntimo e intimista entre espelhos e reflexos, no limite entre realidade e criação literária.
“Estava escrevendo sobre minha própria tentativa de suicídio — e eu tive várias — e tentei estabelecer um paralelo entre Spofforth e King Kong”, disse Tevis em uma entrevista. “King Kong me comovia muito quando eu tinha cinco ou seis anos. Eu reagia de verdade ao macaco e aos seus sentimentos por nós. Naquela época, eu não compreendi isso, mas, depois — acho que, na primeira vez que li Frankenstein, talvez — [que você nota] que o elemento de um personagem não humano funciona dessa forma, você tem uma tremenda carga emocional, especialmente quando estão rodeados por aquelas figuras, como sempre estão. As pessoas não valem nada em King Kong ou Frankenstein ou 2001 [filme de Stanley Kubrick] em oposição ao HAL, o computador, ou ao Franken­stein, o monstro, ou King Kong, que eu amava. Aparentemente, o escritor pode permitir-se colocar muitos sentimentos de nós, humanos, nesses personagens não humanos, como, claro, eu fiz com Newton em O homem que caiu na Terra e com Spofforth em O imitador de homens.”
É interessante pensar que a ruptura com o status quo faz parte de uma tradição na ficção de distopia. Em 1984 (1949), George Orwell (1903–1950) impõe a Winston a rebeldia de se apaixonar — e duvida do Grande Irmão; já em Admirável mundo novo (1932), de Aldous Huxley (1894–1963), Bernard Marx, o mais alto grau da espécie — quem sabe uma ideia ancestral para Spofforth —, é um sujeito inconformado, incompleto, incapaz de aceitar o que lhe é dado. O próprio Tevis, em O homem que caiu na Terra (1963) — livro que seria imortalizado em sua adaptação para o cinema e que trazia David Bowie (1947–2016) como protagonista —, faria de Thomas Jerome Newton um inconteste rebelde, alguém que precisa transformar-se no outro para voltar a ser quem ele é.
Paralelos
Em alguma medida, a figura de Spofforth torna-se ainda mais complexa, e cheia de nuances e contradições, quando encontra Paul Bentley, um especialista em leitura que aprendeu a ler a partir de um filme que funcionava como cartilha, uma espécie de Pedra de Roseta do futuro. Quando se propõe a ensinar todos a ler, Paul é impedido, e Spofforth pede que grave em áudio os title-cards dos filmes mudos.
Ao longo do livro, Tevis explora as inúmeras composições possíveis diante da insustentabilidade de um mundo vazio, despedido da arte e do surreal — como se o mergulho na lógica fosse, na verdade, uma grande queda livre. Tanto Bob como Paul sabem, mas somente o último é capaz de usar essa certeza para se alimentar.
Às vezes, o trabalho é entediante; mas ele proporciona suas satisfações. Já estou trabalhando nisso há cinco dias; esta é a primeira vez que me sinto à vontade com esse pequeno dispositivo de gravação, para começar a falar sobre mim. E o que há para dizer a meu respeito? Não sou um indivíduo interessante.
Os filmes são frágeis e precisam ser manuseados com muito cuidado. Quando eles quebram — como frequentemente acontece — preciso passar muito tempo cuidadosamente colando- os de volta: tentei pedir ao diretor Spofforth para me designar um robô técnico, talvez um robô idiota treinado como um dentista ou em algum tipo de trabalho de precisão, mas Spofforth respondeu: “Isso seria caro demais”. E estou certo de que ele tem razão. Então, passo os filmes por dentro de estranhas máquinas velhas chamadas “projetores” e garanto que estejam adequadamente ajustados. Em seguida, o começo a projetá-los em uma pequena tela em meu beliche- escrivaninha.
Entre tantos paralelos, Tevis escolhe a pulsão negativa como elemento a conduzir O imitador de homens. E é nessa ousada manobra que a história se desprende por um caminho bastante inovador — e cujos ecos são perceptíveis em Fuga de Nova York (1981), longa-metragem de John Carpenter —, ao engendrar um quebra-cabeça moral e ético, como se pedisse perdão pelas ruínas que está ajudando a construir.
E é quando Bentley encontra Mary Lou — uma rebelde que vive no zoológico, preferindo os animais às máquinas — que o escritor dá cabo de sua criação mais engenhosa. Tal qual um Romeu e Julieta cyberpunk, Tevis consegue dar laços no vazio, gritar dentro de um imenso silêncio.
Paraíso perdido
A Nova York de Tevis é como o Paraíso perdido, de John Milton (1608–1674), um de seus grandes heróis, um grande campo de corpos sem almas. “Eu sempre me senti em sua presença, e que estava sobre meus ombros quando escrevo”, comentou em entrevista ao New York Times. Como explica o próprio Tevis, na voz de seu narrador: “Só o pássaro imitador canta na borda do bosque ”. Aí está o limite entre o humano e o não humano, como gosta de chamar o escritor: justamente os animais. Tanto assim que Mary Lou prefere morar no zoológico abandonado a estar entre os seus e os androides.
Esse é um universo ímpar, e não é exagero pensar que tamanha singularidade seja fruto, em um primeiro plano, do caráter pessoal que O imitador de homens carrega. O livro é um grande debater-se sobre o futuro da humanidade diante da tecnologia, mas também funciona em uma perspectiva muito mais individual — como se observasse o resultado de uma equação falha e que já se soubesse falha.
Nesse ponto, certamente o mais nevrálgico de sua produção narrativa, Tevis encontra Franz Kafka (1883–1924). Da mesma forma que o checo, o norte-americano compõe um mundo opressor e confuso a partir de uma realidade igualmente distorcida. Se, para o autor d’A metamorfose (1915), o absurdo é inerente ao cotidiano e a tudo que o alija de uma vida psicologicamente estável, sob o olhar de Tevis esse mesmo absurdo é indissociável de se estar vivo. Uma observação, pode-se dizer, bastante niilista.
É, na verdade, como se o escritor, através de uma janela embaçada, atualizasse a descrença, projetasse sobre suas criaturas o signo de um Gregor Samsa, que, em vez de se transformar em um inseto monstruoso, acorda como um robô.
Corações e mentes
O funcionamento interno da prosa de O imitador de homens encontra seus similares nas outras obras de Tevis. Seja numa óbvia associação com O homem que caiu na Terra, seja em uma aproximação de pontos de vista como em A cor do dinheiro (1984) — que também ganhou uma adaptação, dessa vez com a direção de Martin Scorsese e Paul Newman (1925–2008) e Tom Cruise como protagonistas —, o elo entre todo o corpus literário de Tevis é a solidão.
Seus personagens são sempre homens e mulheres à deriva, perdidos em si mesmos ou numa exploração que transcende, como diria o crítico de arte Arthur Danto (1924–2013), o lugar-comum. “Eu escrevo sobre solitários e perdedores — e, se existe um tema comum em meu trabalho, é isso. Eu inventei a frase ‘nascido perdedor’ em The Hustler (1959)”, avaliou. “De um jeito ou de outro, sou obcecado pela luta entre ganhar e perder. Em The Queen’s Gambit (1983), minha heroína é uma outsider. Em O homem que caiu na Terra, o personagem também é um outsider, um extraterreste alto e magrelo que acaba no Kentucky.”
Quando tudo está em suspenso, não causa estranheza que se faça necessário explicar o óbvio:
Uma “família” é um grupo de pessoas que estão quase sempre juntas, e até parece que moravam todas juntas. Há sempre um homem e uma mulher — a não ser que um deles tenha morrido; e, mesmo assim, estão sempre falando da pessoa que morreu, e imagens (“fotografias”) da pessoa morta ficam perto das pessoas vivas, nas paredes e em outros lugares. E então há os mais jovens, crianças de diferentes idades. E a coisa mais surpreendente, aquilo que parece característico dessas “famílias”, é que o homem e a mulher são sempre a mãe e o pai de todas as crianças! Às vezes há também pessoas mais velhas, e sempre parecem ser as mães e os pais ou do homem ou da mulher! Eu mal consigo entender o motivo disso. Parece que todos são parentes.
Essa é uma literatura cujo modus operandi é o mesmo do xadrez, como se operasse em um campo simbólico, um lugar escondido e possível de ser alcançado apenas por meio dos corações e das mentes de seus personagens. O imitador de homens é uma forma — audaciosa — de ver o mundo, tentar entender a si mesmo e perceber o que ainda nos faz humanos, mesmo que estejamos dançando no vazio.

Walter Tevis: um imitador do tempo
O escritor californiano viveu como a maioria de seus personagens: entre a solidão e a derrota.
Por Jonatan Silva
A literatura de Walter Tevis é um termômetro de sua própria personalidade. Nascido em São Francisco, na Califórnia, em 28 de fevereiro de 1928, Tevis serviu, aos 17 anos, como carpinteiro na Segunda Guerra Mundial, no US Hamilton — um dos principais navios contratorpedeiros da Marinha norte-americana. Após a dispensa, ingressou na Universidade de Kentucky e foi aluno de outro importante escritor, A. B. Guthrie Jr. (1901–1991), vencedor do Prêmio Pulitzer com o romance The Way West (1959) — faroeste que seria lançado no cinema com Kirk Douglas (1916–2020) e Robert Mitchum (1917–1997) — e autor do roteiro de Shane (1953), western dirigido por George Stevens (1904–1975).
Antes de colocar nas livrarias seu primeiro romance, The Hustler, em 1959, já chamava atenção pelos contos que publicava em importantes revistas e jornais como Esquire — que, àquela época, já havia revolucionado o jornalismo —, The Saturday Evening Post, Playboy e Galaxy, uma das mais importantes, em se tratando de ficção científica. Muitos desses textos seriam reunidos, em 1981, na coletânea Far from Home.
“Eu gostaria de falar sobre aquelas histórias. Era o tipo de coisa que realmente me encantava na época. E eu não sei se poderia fazê-las agora ou se iria querer escrevê-las. Mas naquele tempo eu estava mesmo obcecado com a extrapolação da simples ideia do ‘e se?’ na ficção científica, especialmente a respeito de aparelhos que tivessem algum tipo de substância diferente, uma invenção pouco usual ou alguma coisa assim”, comentou Tevis, poucos anos antes de morrer, vítima de câncer de pulmão.
A partir dessa construção narrativa, Tevis se tornaria um nome respeitado no ambiente literário, atingindo seu ápice com O homem que caiu na Terra (1963). A história do alienígena que visita nosso planeta para tentar voltar para casa foi vista como uma fábula sobre o cristianismo. Da mesma forma que Cristo, que teria vindo à Terra em busca de salvação para a humanidade, Thomas Jerome Newton chega ao Planeta Água para impedir que sua espécie seja destruída, após anos de conflitos nucleares.
Para Tevis, O homem que caiu na Terra e O imitador de homens carregam uma história privada, uma luta bastante pessoal. Segundo o autor, ambos os livros são, no íntimo, metáforas assombrosas do — e assombradas pelo — alcoolismo. Enquanto Newton é a síntese de um homem nas garras do vício, Spofforth representa a tentativa de escapar, de fugir de uma maldição autoimposta.
“Eu não espero que as pessoas necessariamente entendam isso dessa maneira, mas é o que significa para mim. Uma cena em que ele [Spofforth] vomita em uma cesta de lixo dentro de um quarto de hotel, bem eu fiz isso muitas vezes”, revelou e completou: “Você sabe, eu tive todas essas experiências, e algumas delas antes de escrever o livro, ainda que eu fosse, de alguma maneira, certo tipo de alcóolatra quando o escrevi”.
Se a sua vida estava recheada de drogas pesadas e de álcool, chega a ser engraçado pensar que o mesmo sujeito capaz de ver a si mesmo como um homem diante do abismo foi professor em pequenas escolas públicas de Kentucky, lecionando inclusive Educação Física. Essa ideia da luta do homem comum parece estar entranhada na literatura de Tevis, como se fosse um duelo entre coração e cérebro, uma dicotomia natural entre o bem e o mal.
No meio dessa mística, de rebeldia e maldição, Tevis publicou ainda The Steps of the Sun (1983) — que apresenta os Estados Unidos colapsado e uma China dominante, um olhar bastante sintomático em uma leitura pós-coronavírus —, The Queen’s Gambit (1983) — que explora os limites entre obsessão e a autodestruição — e A cor do dinheiro (1984) — retomando Fast Eddie, de The Hustler, e que, dois anos mais tarde, seria levado ao cinema por Martin Scorsese.
Durante toda a sua vida, Tevis imitou e brincou com o tempo. Explorou as possibilidades e impossibilidades de desenvolver uma escrita que pudesse transcender as experiências que ele mesmo havia vivido — um exercício de coragem e inteligência. Ainda assim, e de forma irônica, Walter Tevis viveu como a maioria de suas criaturas, flutuando entre a solidão e derrota.

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