Canto da planície: o jogo de esconde-esconde de Kent Haruf
Canto da planície: o jogo de esconde-esconde de Kent Haruf
Publicado há duas décadas, primeiro livro da “Trilogia da planície” é um olhar cuidadoso sobre o espelho trincado da sociedade.
Por Jonatan Silva

Holt é um lugar comum do Colorado. Céu de porcelana. Ruas de terra. Fazendas. Cercas de arame farpado. Pessoas simples com vidas simples – o que não significa que sejam existências vazias, longe disso. O retrato que Kent Haruf faz da cidade ficcional – palco de Canto da planície, primeiro volume da Trilogia da planície – é um olhar singelo sobre as singularidades cotidianas, como uma espécie de Twin Peaks, porém, menos sombria e surreal. Nesse caso, as surpresas moram nos detalhes. “Esse lugar não é bonito”, comentou Haruf certa vez sobre Holt,”mas tem a sua beleza”.
Canto da planície é um romance múltiplo em tom quixotesco: cada personagem luta por sua própria causa perdida. Tom Guthrie tenta trazer Ella, a esposa, de volta para casa ao mesmo tempo em que esconde um affair com Maggie Jones. Os filhos de Tom, Ike e Bobby buscam encontrar seu lugar no mundo, flutuando entre a infância e o início da adolescência. Victoria Roubideaux precisa lidar com a gravidez indesejada que acaba levando-a à casa dos broncos irmãos McPheron, dois fazendeiros solteirões. Todos se cruzam em Holt. Tanta proximidade só pode gerar duas coisas: conflito e isolamento, e Haruf consegue transcrever ambos com sutileza e exatidão.
Quando Haruf apareceu, em meados da década de 1980, a comparação mais óbvia foi com Cormac McCarthy, àquela altura um escritor veterano. Ambos se dedicam a escrever sobre gente perdida e desajustada, que se esconde atrás de um verniz social. A grande diferença, entretanto, está no poder de alcance. Enquanto o autor de Meridiano de sangue e A Estrada faz de seus livros algo tipicamente americano, Haruf consegue subverter essa noção, universalizando a sua história.
O seu narrador é um sujeito metafórico, indireto, entretanto, rico e poético – capaz de levar o leitor pela mão aonde bem entender. Canto da planície evoca Hemingway e Faulkner, não como um jogo de imitação, mas como uma atualização do Grande Romance Americano. Sem prender-se a esses detalhes da caminhada literária, e que dizem mais à acadêmica que ao leitor, Haruf possui uma prosa mais lírica, como se cultivasse um bonsai.
O poderio descritivo de Haruf é praticamente incomparável. “Ao meio-dia, ela deixou para trás o alvoroço e a multidão da escola e caminhou na direção da rodovia”, escreveu para contar o momento em Victoria decide ir embora de casa. Uma vaca enfurecida não é apenas uma vaca enfurecida. O animal é “imponente e as quatro patas era avermelhadas”. Uma sala não é simplesmente quente, é “sufocante” e “entupida de toda variedade de coisas”.
Os diálogos se fundem à narração, incorporando uma mesma massa homogênea. As vozes se juntam para contar a história. Como fazia Saramago, Haruf tenta transcrever para o livro a noção exata de como a vida transcorre fora das páginas.
“O menino olhou para o lado, depois se virou e olho para o outro lado. Então, raspou a ponta do sapato na marca de pneu, apagando-a.
O que está fazendo?, perguntou-lhe Ike. Pare já com isso.
Eu achei que a gente ia dar uma olhada nessa casa velha, respondeu o menino.
Está bem, disse Ike.
Eles seguiram para o oeste, na direção da casa abandonado. A casa do velho, que ficava do outro lado casa deles, estava trancada e banal como sempre, atrás do mato e das moitas altas, e não havia nenhum sinal da presença do velho.”
Se Oscar Wilde (1854 – 1900) tivesse nascido um homem prosaico da zona rural e sem girassóis na lapela, sua prosa não seria muito diferente do que lemos em Canto da planície ou em Eventide e Benediction, livros que completam a tríade e também serão publicados pela Rádio Londres.
Como o escritor irlandês, Kent Haruf exige do seu leitor um pacto tácito de lealdade, como se fossem cúmplices: tudo se vê, tudo se sabe, mas ambos estão conscientes de que precisam deixar os moradores de Holt à sua danação pessoal. Como fora da ficção, há o que sai pela boca e há aquilo que só pode existir em pensamento ou na surdina. O cinismo e o contraste são mecanismos importantes na construção narrativa de Haruf. A trama se desenrola por diversos fios condutores – cada capítulo se dedica a um morador – unidos sempre pela cidade, talvez, o personagem mais encarnado – como, quem sabe, uma entidade autônoma. O clima e a paisagem da cidade, por exemplo, se contrapõem ao humor dos moradores. Ninguém é feliz num dia cinza em Holt.
Em sua genialidade, Haruf explora as estações do ano como moduladores das ações de seus personagens. Canto da planície começa no outono, à medida em que o inverno chega e se torna mais rigoroso, o livro se transformam também. As questões críticas de cada núcleo da trama avançam para situações mais e mais delicadas, amainando apenas quando as temperatura começam a subir.

Sinais
Canto da planície é recheado de muitos nuances e nenhuma moral. Haruf não julga suas criações. Quando Tom agride um aluno que o desafiou em sala, a relação ali não é mais a de mestre e pupilo, mas a do homem que precisa manter a sua posição social, a autoridade que lhe foi dada, mereça ele ou não. Isso não importa, na verdade. Também não importa o porquê Beckman foi para cima de Guthrie. A mãe de Victoria não recebe qualquer veredicto por abandonar a filha. Victoria também não ganha na pele a punição por ficar grávida antes de completar o ensino médio. Ella, que não sabe “o que fazer com as coisas que estão na minha cabeça”, também é perdoada ao deixar os filhos aos cuidados de um pai às raias da omissão. O que vai guiando todos são as consequências dessas pílulas cotidianas. Se o “café estava forte e grosso como piche quente” ou “a casa tinha um aspecto escuro e silencioso” não é por acaso. Há sempre um jogo de sombras.
Por isso, não é exagero dizer que a máxima cristã de amar ao próximo existe somente na superfície. Internamente, cada um está preocupado em domesticar seus próprios demônios. “Eu acho que não vou pagar nada”, diz o barbeiro de Holt ao receber o jornal entregue por Ike e Bobby, “há apenas más notícias”. A cena, que ocupa parte de um capítulo, é um amostra das personalidades ambíguas e das relações enviesadas. A história brinca com a ideia de má notícia e tragédia quando, páginas adiante, caberá aos irmãos anunciar a morte de uma mulher idosa.
Haruf entrega, por meio de imagens muito bem construídas que percorrem todo o livro, sinais para criar a tal cumplicidade. Como um jogo de contradição, a personalidade dos moradores de Holt não é plana, ao contrário, o escritor explora as dualidades possíveis em todas. Ike Bobby não são os pré-adolescentes ingênuos que se espera. A malícia e voluptuosidade de quem está descobrindo o sexo são expostas, quebrando qualquer noção que poderia brotar na cabeça do leitor. Absortos na fluidez sexual, os meninos estremecem quando se dão conta de que um cavalo da família está à morte. Eles não são os garotos de Conte comigo ou de Os Goonies, estariam mais para Você se lembra de Dolly Bell?. Novamente, sinais e singularidades.

Tempo
Canto da planície dialoga com a ideia de realidade e interpretação, estranheza e pertencimento, expectativa e construção do real. Apesar de o livro já ter alcançado sua maioridade há dois anos, a cidade de Holt ainda representa um espelho doente da nossa sociedade, esbarrando nos paradigmas e nas convenções até, finalmente, trincá-lo.
Haruf inverte os papéis que seriam clássicos. Não é difícil também pensar a população de Holt dentro do cenário de crescente conservadorismo e alheamento. Muito antes de a ideia de fake news e fatos alternativos chegar como a explicação mais rasa para qualquer discordância, Haruf já discutia o entendimento de compreensão do outro. Nesse sentido, os irmãos McPheron, que poderiam muito bem representar o típico redneck e serão o ponto de partida para o segundo livro da trilogia, testemunham uma mudança radical com a chegada de um bebê.
Simultaneamente, o escritor cria um mundo desprovido de marcadores temporais. Carros são somente carros, não há marcas ou modelos. Telefones não passam de aparelhos para fazer ligações. Computadores nem são citados propriamente. Não há qualquer indicativo tecnológico suficiente que transporte o leitor para uma década específica, mas é fácil imaginar que a história é contemporânea e aconteceu ontem ou acontecerá amanhã. A escolha dessa assepsia é deliberada. Qualquer rótulo sobre a obra seria pesado demais.

Um lugar silencioso
O mundo de Haruf é um lugar imperfeito e silencioso. Não existe muito alarde, como se propusesse a resignação como única opção. A angústia percorre os limites físicos e psicológicos. “A garganta queimava, o peito doía”, descreve na cena em que a mãe descobre que Victoria está grávida, sem delatar se a dor é uma metáfora ou um sintoma. Em outra parte, mais adiante, Haruf é mais direto ao construir a solidão: “tudo parecia vazio e triste”. Há uma sensação de asfixia e apreensão a todo momento, como se o autor traduzisse ipsis literis o que significa estar vivo.
Canto da planície não é um romance pálido, mas uma vigorosa reflexão sobre as idiossincrasias da vida, tendo como ponto-chave a família que, por vezes, apesar de desconstruída, mantém uma espécie de núcleo ao redor do qual tudo acontece. “Eu realmente acho que os relacionamentos humanos são sempre interessantes e as famílias são onde eles são mais intensos”, comentou em uma entrevista à época do lançamento em 1999. Para Haruf, o fim do século XX representava a ruptura das estruturas que conhecíamos até então. Em certa medida, não estava errado.
Ao longo de todo o livro, as relações se fundem e estremecem constantemente, porém, ainda assim, os abalos são mínimos. As maiores dissenções vêm de mulheres: Ella, Doris, a mãe de Victoria, e Maggie Jones. São elas as operadoras das grandes emoções na trama. Haruf não as faz vilãs, mas sujeitos libertadores. Todas, de alguma maneira, apartam-se daquilo que consideram abominável e intragável. Canto da planície é um livro sobre reconstrução e amadurecimento – em qualquer idade.

Kent Haruf: o escultor do tempo

Por Jonatan Silva

Kent Haruf morreu em 2014, no dia de Santo André. Um domingo. Pouco depois, o The Guardian publicou seu obituário, descrevendo-o como “um grande autor e um grande homem”. A ordem talvez fosse a inversa: antes de tornar-se escritor, Haruf fora um homem que nasceu em 24 de fevereiro de 1943, em Pueblo, no Colorado, trabalhou em granjas, clínicas de reabilitação, hospitais, bibliotecas, escolas e universidades.
As paisagens que vira quando criança – uma infância que descreveu como “mais ou menos feliz” – e a cultura específica das cidades pequenas foram, sem dúvida, influências enormes em sua escrita. Entrementes, o que possivelmente definiria o seu modo introspectivo de ser e escrever tem uma ligação intensa com seu olhar de menino assustado sobre o mundo. “Uma cicatriz no meu lábio e meu nariz achatado foram motivos de vergonha e humilhação, e o porquê de eu ter me afastado das pessoas à minha volta”, contou em um ensaio autobiográfico na revista Granta. A obsessão em esconder o próprio rosto consumiria 30 anos de sua vida.
Não é de se assombrar que seu début, The Tie that birds, a história de uma mulher que abdica do amor para cuidar do pai doente, foi publicado somente em 1984, recebendo menção especial no PEN/Hemingway Prize – um honraria e tanto para um estreante. Antes de chegar às livrarias, foi preciso passar duas décadas escrevendo, lapidando sua linguagem e seu método. Nesses 20 anos, cultivou experiências humanas e literárias, criando aquele seria seu personagem mais importante, a cidade de Holt. “Escrever é a coisa mais difícil que eu conheço”, disse, “mas a única que eu realmente quero fazer”. Where You Once Belonged – o drama de um herói do futebol americano que se tornaria uma mente criminosa – levaria seis anos para ir às prateleiras. Ainda em 1990, Haruf – que sempre gostava de dizer que seu nome rimava com xerife, dando a letra da pronúncia correta – tornou-se professor na pós-graduação de Belas Artes na Southern Illinois University.
Morando em um trailer “de um quarto”, enquanto as esposa e as filhas estavam no Colorado, Haruf começou a escrever Canção da planície. O livro só estaria finalizado seis anos mais tarde e seria publicado em 1999. À exceção da relação com os estudantes, vivia isolado. Aliás, o único contato fora da universidade era com os três membros de uma família com deficiência intelectual. “Eu costumava ajudá-los levando-os de carro até a mercearia ou aos seus compromissos com o Serviço Social”, relembrou anos mais tarde.
De volta ao seu estado natal, em 2004, Haruf escreveria Eventide, segundo livro da “Trilogia da planície” e que tem os irmãos McPheron como arco narrativo condutor, e os textos de West of Last Chance (2008), livro de fotografias de Peter Brown. Na segunda década do século XXI, deu ao mundo Benediction (2013), parte final de sua trilogia. Meses mais tarde, descobriria estar gravemente doente com uma enfermidade no pulmão. Em sua última entrevista, Haruf definiria a questão como “incurável” e “irreversível”, alternando períodos de cama e momentos em que vivia como se não estivesse em seus últimos dias. “Eles [os médicos] não me deram um número especial de dias ou algo assim. Eu tenho altos e baixos. Nesse exato momento, eu não sinto como se a morte estivesse ali na esquina, mas se estiver, acho que é uma esquina maior do que eu pensava”, comentou com ironia a John Moore.
Entre maio e junho de 2014, como um manifesto de sobrevivência, escreveu Nossas noites. Ironicamente, o canto do cisne se tornaria seu livro mais conhecido, graças à adaptação cinematográfica feita para a Netflix.

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