Barão Corvo: um homem invisível
Barão Corvo: um homem invisível
Com um texto esculpido e uma investigação precisa, “Em busca do Barão Corvo” é um retrato suntuoso de uma personalidade complexa e intrigante
Por Jonatan Silva

Poucos são os escritores cujo mistério de suas vidas pode superar sua literatura. Sylvia Plath (1932–1963) e Oscar Wilde (1854–1900), em certa medida, viveram anos a fio atrás das cortinas de seus próprios mitos até que fossem redescobertos. Frederick Rolfe (1860–1913) é um desses exemplos. Louco, excêntrico, gênio e desafortunado, Rolfe viveu brevemente, e sua vida foi marcada por vícios e virtudes. Morreu sozinho e praticamente no anonimato. Sua biografia é envolta em uma névoa alegórica, uma espécie de camada mitológica quase incapaz de se dissolver. Do silêncio sepulcral, Rolfe só se libertou quando A.J.A. Symons (1900–1941) — também extravagante e um exímio escritor —, fascinado por sua vida errante, empreendeu uma verdadeira caça ao Graal ao tentar remontar, minimamente, os dias desse que foi um dos primeiros homens modernos. Dessa jornada, nasceu Em busca do Barão Corvo, um misto de biografia e ensaio, mas, antes de tudo, o retrato pessoal de um indivíduo complexo, cuja personalidade guarda um emaranhado de reentrâncias.
Symons chegou a Rolfe por acaso. Um amigo, Christopher Millard, igualmente um outsider e que morreria antes de ver as páginas do livro publicadas, emprestou-lhe Adriano VII, uma autoficção antes que esse termo fosse criado, um século mais tarde. O livro, um escândalo tal qual O Retrato de Dorian Gray, descreve a eleição papal de um homem sem vocação. Satírico, ousado e, até certo ponto, um exemplo de prosa vanguardista, Adriano VII foi publicado em 1904, como um símbolo da desilusão de Rolfe com a Igreja Católica. Como o padre que desce o corrimão da igreja vestido de bailarina — na canção de The Smiths —, o cúria do Barão Corvo é alguém fora do papel, o homem que, a despeito da boa vontade, é falho e inseguro, um exemplo da sofreguidão daqueles que não estão entre os escolhidos.

Rolfe, que foi de dândi virtuoso a proscrito, esboçou vocação clerical, deixou o seminário, correu a Europa e abandonou o próprio nome, passando a assinar simplesmente como Barão Corvo. Homossexual e homem injustiçado, ficou para a história em razão de suas excentricidades, e não pelas habilidades que faziam dele não apenas escritor, mas também artista plástico e pioneiro da fotografia. Era, antes de tudo, um explorador nato das possibilidades artísticas que estavam ao seu alcance.
É fundamental dizer, entretanto, que Barão Corvo não era apenas um pseudônimo, mas, sim, a encarnação de um ser humano praticamente incapaz de ser compreendido no seu tempo. Dessa experiência, uma combinação de alegorias vivas e de exageros imaginários, surgiu um artista completo e singular, uma mente atribulada e perturbada de muitas maneiras. Por isso, o resgate de Symons é, sem ambiguidade alguma, um acerto de contas histórico e uma pedra a ser colocada sobre essa lacuna da história da literatura.
Foi surpreendente descobrir que, no começo, Rolfe não era minimamente considerado um escritor: ele se apresentava e era visto como um pintor; na verdade, fora sua promessa no campo das artes que levara a Duquesa a sustentá-lo. Entretanto, ele escreveu realmente alguns versos, ocasionalmente, em sua maioria inspirados em sua própria pintura.
Symons, cujo espólio inclui uma biografia não concluída de Wilde, faz de Em busca do Barão Corvo também seu testamento. Publicado apenas seis anos antes de sua morte, o livro é uma amostra voluptuosa, e também de validação, da elegância e da sublimação social que pareciam integrar os intelectuais daquela virada de século. Naqueles tempos de efervescência e de uma tremenda ansiedade pelos anos que estavam por vir, Rolfe era, ao mesmo tempo, espirituoso e paranoico. Nesse teatro de sombras — em que o barão ficava escondido na barra das túnicas de Wilde e Yeats (1865–1939) —, Rolfe, cada vez mais, permanecia como um homem fora da órbita. De forma irônica, onde tentava encaixar-se, não conseguia encontrar seu lugar.
Bancarrota
Symons investigou Rolfe em minúcias. Procurou seus colegas de seminário, escritores e colegas de escrita, familiares e tantas outras pessoas que pudessem revelar os aspectos mais simples de sua existência. Esse fascínio, uma espécie de devoção pelo invisível, é a espinha dorsal do livro: a cada linha, é possível notar admiração e curiosidade, dois sentimentos que tanto podem ser dos adolescentes como fruto da experiência de um homem maduro cansado do que vivera (e vira) até então. A impressão que se tem de Rolfe é a de um Rimbaud tardio, um devasso tentando alcançar o paraíso, mas acometido de uma profundíssima solidão.
As cartas que trocava com amigos, os desafetos, os desconhecidos e os editores em potencial davam conta da dinâmica dessas relações. Diante da flutuação das amizades, Rolfe tentou exilar-se em Veneza. Essa imposição — consequência de sua fragilidade e de sua instabilidade emocional e financeira — é descrita por Symons como uma aventura romântica e até mesmo conscientemente fracassada. Uma manipulação, em suma, da imagem que Rolfe fazia de si mesmo. São esses detalhes microscópicos, essa percepção arguta, que dão a ideia da grandiosidade da obra.
Foi um feito impressionante; mas esse crédito tinha muitos suportes. Em primeiro lugar, quando podia, Rolfe pagava generosamente, dando a ideia de que não ficaria sem dinheiro por muito tempo. Em segundo lugar, os donos dos hotéis em localidades onde há um fluxo turístico ligado às estações acolhem, de bom grado, os residentes fixos; e, já que “Mister Rolfe” tinha manifestado sua intenção de ficar permanentemente, o senhor Barbieri, proprietário do Hôtel Belle Vue, não tinha desejo algum de perder esse cliente, sem um bom motivo.
O Barão Corvo era, em primeiro lugar, um náufrago em uma ilha deserta. Um Robinson Crusoé autodidata. Essa vocação para a bancarrota, quase uma propensão byroniana para o suicídio social, é visível nas provocações que fazia, empregando os meios que tinha em mãos, em geral jornais e revistas de prestígio médio. Sua primeira estocada, por assim dizer, aconteceu em Wide Word Magazine, um periódico de bom alcance, acostumado às polêmicas e às traquinagens dos escritores rebeldes. Foi nessas páginas que Rolfe escreveu Como eu fui enterrado vivo, um artigo pseudomemorialístico cujo protagonista, Louis de Rougemont, estava envolvido em questões — à época chamadas de ridículas — que despertaram a revolta e o escárnio da imprensa local. O mistério que ainda envolvia a identidade do autor também levantava insinuações tão cínicas quanto o texto que criticavam. Rolfe começava, assim que colocou um ponto-final em seu relato episódico, sua ascensão e queda, praticamente, em simultâneo. A partir dali, destratá-lo na imprensa se tornaria o esporte favorito de muita gente.
O amigo devotado
O círculo de amizades de Frederick Rolfe incluía Robert Ross, o amigo devotado de Wilde e a última pessoa a ver vivo o autor d’O Príncipe feliz, e tantas outras figuras importantes daquele período. Ainda assim, talvez nenhuma relação de amizade tenha sido tão intensa quanto a que nutria com Robert Hugh Benson. Onze anos mais novo que Rolfe, Benson o descobriu por meio da literatura. A equação, para Symons, era simples: o leitor “havia reconhecido muito de si mesmo e de seus interesses no devaneio de George Arthur Rose”, o protagonista de Adriano VII.
Em busca do Barão Corvo não se debruça sobre insinuações, mas não é difícil notar que a fraqueza de Rolfe, para além dos luxos, era a vaidade. Na primeira carta enviada ao escritor, Benson não poupa mesuras e não economiza salamaleques para atrair o veterano. Como um jovem deslumbrado, Rolfe deixa-se levar. Nessa troca de elegância, selava-se a amizade. E isso, em grande parte, porque:
Seu temperamento tinha muitos aspectos em comum com o de Rolfe. Em ambos, havia a mesma energia frenética e ambos se haviam convertido à fé católica; outro elemento em comum era o interesse pela escrita e pela arte.
Como é do métier de Rolfe, sua relação com Benson navegava em mares revoltos, ainda mais quando o novato decidiu tornar-se noviço. Mesmo prometendo que escreveriam juntos um livro, e o padre Benson — sim, como seu mentor, também escolheria o seminário — afirmando que jamais esqueceria as lições aprendidas com a literatura do amigo (em especial, o valor da solidão), houve, em algum momento, um ruptura, uma cisão difícil de ser consertada.
Symons constrói sua narrativa com uma pulsão de sensibilidade e estranheza. Não há espaço para sutilezas. Seu personagem e sua gênese não permitem isso. Se, por um lado, Rolfe é avesso às pequenas convenções diárias, em outro sentido há nele um quê de inocência e inaptidão. É diante do avanço de seu isolamento que o Barão Corvo cresce como polemista e artista. É ele, no melhor modelo kafkiano, o artista da fome. E, como está apartado, seu olhar artístico se volta para outros horizontes como uma busca impossível de chegar ao fim. Sob esse prisma, Em busca do Barão Corvo é um diagnóstico preciso de uma alma extremamente confusa e complexa.
Périplo engenhoso
Pouco se explica por que Rolfe permaneceu no ostracismo por tantos anos. Como vingança sobre o tempo, A.J.A. Symons fez de si mesmo um Pierre Menard — personagem de Borges que espera escrever uma tradução tão perfeita de Dom Quixote que acabe, ele próprio, como autor do livro —, tamanha era sua sanha de entender o que silenciou um escritor como Barão Corvo.
Sem dúvida, ao ultrapassar as fronteiras do texto biográfico, Symons ajudou a moldar a ideia que se tem hoje de biografia. É nessa profusão de camadas e interpretações que o livro se destaca e ganha olhares e significados únicos.
Existem, em cada página, pontos de interseção entre Symons e Rolfe: são vozes que, visivelmente, cruzam-se em um potente labirinto narrativo. Se há algo que chama a atenção nesse tecido literário que cobre autor e personagem, é, justamente, a ausência de ambos no panteão dos grandes escritores, o que faz de Em busca do Barão Corvo um resgate duplo e um périplo engenhoso em que realidade e ficção não se confundem, mas se completam em um dos maiores textos biográficos já escritos.

A.J.A. Symons: um homem de mil faces

Alphonse James Albert Symons (1900–1941), ou simplesmente A.J.A. Symons, é um dos mais interessantes e desconhecidos escritores da literatura britânica. Sua vida, cheia de reviravoltas, fatos inusitados e excentricidades, daria uma bela (auto)biografia — ao melhor estilo que ele próprio escrevia. Nascido em uma família de posses, em Londres, muito cedo, após atravessar dificuldades financeiras, precisou abandonar a vida de confortos e facilidades para trabalhar. Passou três anos como aprendiz de peleteiro, um período duro, mas que moldou boa parte de seu olhar sobre o mundo.
Symons, que se considerava autodidata, foi um dos responsáveis por dar corpo ao fazer biográfico tal como o conhecemos hoje. Escreveu sobre diversas personalidades, entre elas o poeta William Butler Yeats (1865–1939) e Emin Pasha (1840–1892), o médico e naturalista alemão que governou a província egípcia de Equatória, região que hoje pertence ao Sudão do Sul. Seu livro, H.M. Stanley, publicado em 1933, é um intrincado exercício de investigação sobre a vida do jornalista Henry Morton Stanley (1841–1904), enviado à África em busca de David Livingstone (1813–1873), o explorador britânico famoso por suas expedições ao continente africano.
A boa recepção do livro foi o estopim para que Symons empreendesse outra caça ao tesouro: remontar os dias de Frederick Rolfe (1860–1913), o exótico Barão Corvo. A partir de Em busca do Barão Corvo (1934), Symons sedimenta sua carreira e ressignifica o gênero. A obra, que nasceu de uma obsessão pessoal, é ainda um dos melhores exemplos da fusão possível entre biografia e ensaio.
Em certa medida, Symons era tão excêntrico quanto os personagens que escolhia para retratar: quando não estava escrevendo ou desenvolvendo sua caligrafia, dedicava-se a tardes preguiçosas com os amigos, a jogos de azar e a uma coleção de objetos pouco usuais, como caixinhas de música e porta-cartões de visita vitorianos. Para além da literatura, em 1933, ao lado de André Simon, fundou a Wine and Food Society, organização sem fins lucrativos criada para difundir os “prazeres da boa mesa” e cujos membros participam de diversos encontros e festivais gastronômicos.
Quando a Segunda Guerra Mundial eclodiu, e a Inglaterra foi tomada por um severo racionamento de comida, escreveu The Unration Book, uma ousada paródia do documento oficial que deliberava sobre o controle alimentar durante o conflito. Ainda assim, e apesar da bibliografia profícua, Symons constantemente se queixava das dificuldades que tinha para escrever e acabou buscando ajuda nos estudos psicanalíticos de Freud, em voga na época.
Em 1936, seus últimos anos foram marcados pelo divórcio, após 12 anos de casamento com Gladys; três anos mais tarde, foi acometido por uma paralisia parcial que o acompanharia até o fim da vida. Quando morreu, escrevia uma biografia não finalizada de Oscar Wilde (1854–1900) e que só seria publicada em 1950, após autorização do Julian Symons, irmão do biógrafo. “Nós, que o conhecíamos bem”, disse André Simon dias após a morte do amigo, “estaremos em luto, mas todos sentirão sua falta. Seu lugar jamais será preenchido e nunca haverá ninguém como A.J.”.
A.J.A. Symons foi um homem de mil faces, cujos detalhes — aqueles mínimos, que às vezes parecem invisíveis — fizeram dele um sujeito singular que merece ser descoberto e lido.

a.j.a. symons
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