À sombra de uma dúvida
À sombra de uma dúvida
Em O Desvio, Gerbrand Bakker cria uma narrativa intimista que eleva o desespero ao estado máximo de arte.
Há duas maneiras de sentir-se sozinho: sentir-se sozinho no mundo e sentir a solidão do mundo.
Emil Cioran
Por Jonatan Silva

Susan Sontag, ao falar de fotografia, dizia que os mistérios do mundo se rompem diante das lentes de uma câmera. Tudo o que separa realidade e imaginação se dilui na imagem fixada no papel — como se o fotógrafo fosse capaz de materializar o imaterial e dar forma ao amorfo. A prosa realista ocupa esse mesmo lugar: sobrepõe as camadas possíveis, tornando visível aquilo que se esconde sob o verniz da moral e da ética.
É sobre as lacunas deixadas pela memória e a imprecisão na interpretação da realidade que o escritor holandês Gerbrand Bakker compõe O Desvio, seu terceiro romance adulto — vencedor do Independent Foreign Fiction Prize em 2013 — e o primeiro publicado no Brasil. O livro se desdobra sobre o isolamento de Emily, uma mulher misteriosa que abandona tudo para viver em uma pequena fazenda em Hull, no interior do País de Gales, após seu marido descobrir os casos amorosos que mantinha com alunos na universidade, em Amsterdã.
Entre o desejo de estar só e a inaptidão de sua própria companhia, a personagem revela seus desalinhos e fragilidades, as contradições que dão cor à sua personalidade e a insatisfação no que se refere ao mundo que a cerca. Metafísica à parte, Bakker lapida uma mulher real cuja complexidade se assemelha à G.H. de Clarice, em um jogo de harmonia temporária e ilusória. É por meio de situações limítrofes que o autor quebra o equilíbrio de sua protagonista, como se ela estivesse sempre dentro da neblina, tentando encontrar a saída do nevoeiro.
E, seja pela mordida que leva de um texugo — e que coloca em xeque sua credibilidade com os moradores da região —, seja pela chegada inesperada de Rhys, um fazendeiro intrometido que usa o campo do chalé para que suas ovelhas pastem, a protagonista se dá conta de que a paz que busca é um objetivo distante, às raias do dever de um Sísifo contemporâneo.

Estética do isolamento

Se Pasolini brincava com a ideia da miséria e mergulhava seus personagens na estética da ausência de meios, Bakker prefere o isolamento, a ausência do outro e de si, para criar um arranjo narrativo denso — ainda que fluido — e pictórico. Suas paisagens do campo são como as imagens de Monet, de uma beleza inconsolável e ameaçadora, e os retratos urbanos passeiam pela contraluz e pela solidão de Hooper.
Nesse jogo de aparências — à primeira vista antagônico —, O Desvio é um livro em constante crescendo de desespero e ruptura. Como afirmava o filósofo romeno Emil Cioran, não existe quem não carregue “um remorso — por mais pálido e indeciso que seja — por haver escapado de uma dor ou de uma doença”.
Todos são levados à culpa muito mais por implicações sociais do que por um desejo verdadeiro de resolução. Por isso, à medida que os dias se passam e Emily não reaparece, o marido — como um Odisseu invertido — sai ao mundo, à procura da esposa. Os pais se preocupam com o sumiço da filha, mas parecem mais interessados em descobrir as cisões que levaram à sua fuga do que em encontrá-la.
Esse composé faz de O Desvio um thriller que não é thriller — como define o escritor —, um emaranhado de rotas de fuga que acabam por levar ao mesmo lugar. Não é exagero dizer, portanto, que o mistério é a própria arte da ficção e do fazer literário de Bakker. “Eu não sei de nada quando escrevo”, comentou o escritor, “eu simplesmente escrevo e gosto. Depois meu editor lê e me conta qual é o tema do livro. Eu não sei e realmente não me importo. Eu descubro muito mais com meus leitores. São eles que me contam sobre o que é o livro”.

Casa dos espíritos
Por toda a narrativa, criam-se transfigurações dos lugares-comuns. Emily não se chama Emily e Hull não é uma cidade tão pequena ou remota quanto possa parecer. A escolha do nome não é furtiva: a protagonista é uma pesquisadora obcecada pela obra de Emily Dickinson — cuja fotografia enfeita a lareira de seu cativeiro e com quem tem os mais verdadeiros e possíveis vínculos afetivos.
As duas mulheres — a poeta e a professora — são mais que pessoas: são ideias e sentimentos. Na verdade, Bakker faz de todos os seus personagens arquétipos e sensações. O marido não é somente um homem traído, mas a corporificação da dúvida. Emily, a esposa, encarna o desespero. Emily Dickinson é a musa. Os outros são como um coro grego, que segue o que está escrito, mas não é capaz de guiá-lo.
Desde as primeiras páginas, Emily está perdida e, por isso, é significativo o fato de o livro abrir com “A Country Burial”, poema de Dickinson publicado uma década após sua morte. E, quando está contra a parede, acossada como um bicho kafkiano, é na poesia de sua musa que a mulher em fuga se abriga e deflagra certo ar de concupiscência:
Saiu da banheira e se enxugou. O espelhinho sobre a pia estava embaçado. Viu seu tronco e sua cabeça como uma massa rosada. Sem pensar, tomou dois comprimidos de paracetamol. Roupas úmidas estavam penduradas na balaustrada em torno da escada, e a tolha foi pendurada ao lado. A lareira estava acesa no escritório, e a luminária sobre a mesa de carvalho também. Foi para a frente do fogo, sentia a pele lisa de suas coxas e ventre. Passou a mão nos seios e olhou fixamente para os olhos negros de Emily Dickinson. “Pra você, é fácil”, disse. “Você está morta.”
No fim, todos são espíritos em uma mesma casa.

Melancolia
O Desvio explora as solidões e os inúmeros vazios fragmentados ao longo da vida. E é a lembrança do tio favorito — que tentou se matar em um lago que o cobria até a cintura — que mais a reconecta com a realidade. Como um paralelo ardiloso, Emily fugiu para o campo tentada a morrer para aqueles a quem deixou para trás. Em ambos os casos, o afogamento e a fuga, descobre-se a fórceps que a operação era impossível.
Tio e sobrinha são obrigados a viver com o que lhes resta e com o julgamento pelo escapismo. Para ambos, sobram poucas opções de refúgio a não ser em si mesmos. Se há uma chance de romper com esse destino, é com a chegada de Bradwen, um adolescente esquisito que está sempre acompanhado de seu cachorro Sam — uma espécie de Belle e Sebastian mais malicioso.
Entorpecida por algo que desconhece, Emily não se dá conta de sua ingenuidade absoluta. São peças que caem o tempo todo em um mundo imperfeito e incapaz de alcançar a serenidade. Sua identidade é posta à prova a todo instante: por ela própria — ao abandonar o próprio nome — ou por ser constantemente confundida com as mulheres alemãs. “Ela está tentando fazer o melhor e tenta ficar só”, afirma Bakker, “mas, como você, eu e todos sabem, é impossível ficar sozinho nesses dias”.
Os fatos se encadeiam como um dominó, com uma relação de causa e efeito. Para Nietzsche, a beleza não era fruto do acaso, mas das circunstâncias que levavam a ela. O mesmo se pode dizer da melancolia que nasce da percepção de angústia diante do todo. Ao contrário do que se possa imaginar, Bakker pincela com leveza esses elementos, organizados em uma composição harmoniosa e elegante. O arranjo narrativo é poético e preciso, com cada coisa em seu lugar. É possível ouvir o vento soprar e perceber o calor que Emily sente ao se deitar em uma pedra quente.

Chagas
O Desvio percorre os caminhos tortuosos da vida e explora sem medo as fraquezas dos personagens — sem se comprometer a dar uma solução definitiva. A literatura de Gerbrand Bakker é feita do etéreo e do inconsciente, mas também do palpável e do crível. Ao colocar no papel as contradições, o autor cria um evangelho próprio, um olhar bem peculiar sobre o que é viver e estar vivo.
Por outro lado, o livro também é uma revelação para o escritor, como se ali, naquelas páginas, estivesse um homem que ele ainda não conhecesse. Essa noção aflorada de si nasceu da tradução de David Colmer para o inglês. “A edição em inglês é muito especial para mim porque me fez perceber que eu sou alguém como Ian McEwan”, disse. “Eu sempre li escritores ingleses e americanos em seus idiomas originais e sempre fiz isso.”
Não é assombroso perceber que O Desvio guarda pontos de contato com Na Praia, novela de McEwan publicada em 2007. As duas narrativas se concentram em mulheres à beira de um ataque de nervos, mas o inglês faz questão de manter em segredo as chagas de seus personagens, enquanto Bakker, ao contrário, as deixa abertas, secando ao sol.
O que diferencia os dois escritores é a construção da narrativa. McEwan explora os aspectos externos aos personagens — a conjuntura política e as questões familiares, por exemplo — para determinar a trama. Bakker, por sua vez, se debruça sobre os sintomas psicológicos, preferindo encontrar brechas íntimas, visíveis somente ao escrutínio do narrador, para traçar sua história.
O holandês faz de Emily um Bartleby da era da informação. Prefere não fazer parte da vida em sociedade, quer alijar-se daquilo que liga ao outro. Como o escrivão de Melville, exige deixar-se definhar, apagar aos poucos, transformar-se em uma mulher invisível. À sua volta, o mundo continua a rodar, mas ela está suspensa no tempo, perdida em seus próprios pensamentos.
A viagem ao País de Gales não é uma reconstrução, mas a simples tentativa de permitir abandonar-se — enquanto a maioria das pessoas caça como placebo o consolo de uma convivência amarrada. Não é dever da arte representar a realidade, mas cabe a ela criar uma ideia do que é a realidade para o artista.
Nesse sentido, O Desvio é um réquiem sobre a superficialidade das relações, suas implicações e os descaminhos que podemos, inadvertidamente, tomar.

 

gerbrand bakker
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