A Beleza Secreta de Kent Haruf
A Beleza Secreta de Kent Haruf
O segundo volume da Trilogia da Planície explora paisagens íntimas e revela um manual de sobrevivência diante do caos.
Por Jonatan Silva

Arquipélagos são conjuntos de ilhas que, apesar da proximidade, jamais se tocam. Os personagens de No Final da tarde, segunda parte da Trilogia da Planície, são como essas pequenas porções de terra: apartados por um mar quase intransponível. Holt, a cidade fictícia em que orbita o universo de Kent Haruf, maximiza as distâncias e é, como diria Cortázar, lejana. Tudo na literatura de Haruf são texturas: é possível sentir a aspereza do dia a dia no interior, a suavidade do vento no entardecer – como o sopro de vida clariciano – e a irregularidade das relações. No fim das contas, Holt é qualquer lugar – aqui ou ali.
Se Canto da planície, volume que abre a tríade, é um lampejo quixotesco, No Final da tarde se mostra um romance de formação. Mas quem amadurece, cresce e ganha forma não são os jovens, e sim os velhos. É Raymond McPheron – ao lidar com o luto e as pequenas conquistas, quase invisíveis, – quem se transfigura, muda de lugar. Betty e Luther Wallace, um pobre casal que vive às raias da miséria moral, precisa abandonar quem são para se manter incólumes às tempestades que teimam em lhes perseguir. Walter Kephart, “um homem de cabelos brancos de setenta e cinco anos”, tenta driblar suas próprias fraquezas para proteger seu neto, mesmo em um doloroso silêncio.
Haruf traça uma espécie de geografia sentimental – com suas planícies, seus vales e suas depressões. Em No Final da tarde sua atenção se volta aos mais velhos e aos mais jovens, explorando os extremos da existência. Por meio desses retratos, com um quê de singeleza e melancolia, o escritor percorre os vícios e as virtudes que acometem o ser humano. Entre a inocência e a necessidade de sobreviver, as crianças se viram como podem. “A infância é um momento bastante vulnerável e doce”, afirma. “Muitas coisas acontecem às crianças, coisas que as pessoas ao redor delas estão fazendo, mesmo sem que tenham consciência, mas que a afetam.”
No Final da tarde é um caminho já trilhado em Canto da planície, mas não é a mesma rota. Sem condescendência algum, Haruf cria uma obra sobre o entendimento e a razão. Não em um sentido pragmático – cartesiano e exato –, mas com todas as variações e interpretações possíveis. Para além de uma história cheia de reentrâncias, que dá sustentação às diversas tramas, No Final da tarde é um libelo sobre resistência e resignação.
Como em Nossas noites, Haruf explora o extraordinário através do cotidiano e daquilo que está escondido atrás das cortinas. Katie, a filha de Victoria – a adolescente grávida de Canto da planície –, não representa apenas a renovação, mas a chance de continuar. Abandonada pela mãe assim que descobriu a gravidez, só encontrou abrigo onde era menos provável: no lar dos McPheron. Por sinal, os irmãos Harold e Raymond são o alicerce de todo o livro. Visíveis ou não, eles estão em toda a parte e dão sentido ao que, ao menos à primeira vista, para estranho, talvez inconcebível.
À altura dos olhos
É diante do absurdo e dos abismos que No Final da tarde ganha força. Um neto que cuida do avô, as crianças que apanham do violento tio de sua mãe, um solteirão idoso que só encontra companhia quando tudo mais parecia em flutuação. Haruf constrói uma narrativa clara e límpida, entretanto, sem abrir mão do subjetivo. “A minha intenção é escrever frases claras, simples, diretas e acreditar que se é possível escrever com clareza, com clareza o leitor vai alcançar o que você espera dele”, disse. “Além disso, eu quero que as pessoas pensem que estão diante de gente de verdade.”
O realismo de Kent Hruf não é doloroso, porém, não poupa o leitor da dor. O leitor está ali, mesmo que subjetivo, diante de um livro de aprendizagens, um manual de como existir em tempos tão contraditórios. Essa ideia ambígua de fracasso e realização, e que vagueia entre a fraqueza e a incapacidade, se materializa nos Wallace. Ambos, apesar do amor que carregam, são constantemente vencidos por um sistema que os aparte, os segrega. São, como dito antes, ilhas inacessíveis – ou quase. Eles fazem o melhor que podem, se esforçam para que se enquadrem, mas nada disso é suficiente. E jamais será.
Logo de início, diz:
Voltaram do estábulo na luz oblíqua da madrugada. Os irmãos McPheron, Harold e Raymond. Homens velhos que se aproximam de uma casa velha no final do verão. Atravessaram o caminho de cascalhos, passaram pela caminhonete e o carro estacionados atrás da cerca de arame e entraram pelo portão, um atrás do outro. Esfregaram a sola das botas na lâmina de um serrote fincado no chão manchado de esterco, compacto e lustroso por toda parte por causa dos anos de pisoteio, e subiram os degraus de madeira até a varanda. Então, entraram na cozinha, onde a garota de dezenove anos, Victoria Roubideaux, sentada à mesa de pinho, estava dando mingau à sua filhinha.
Em uma sinceridade visceral e indissociável, a vida na cidade se compõe como um réquiem, uma peça tão precisa que precisa ser cuidadosamente revelada. Haruf escara, uma a uma, as diversas singularidades de todas aquelas pessoas. Não existe julgamento – não cabe a ninguém escolher o certo ou o errado –, mas tão somente as consequências do novelo desenleado.
Intencionalmente, não existe sentimentalismo e tampouco resiliência. Não é preciso pedir perdão porque não o que ser perdoado. Holt é o resumo de seus moradores, eles o resultado de uma equação social imprecisa – como é na “vida real”. Nada disso fere a densidade da obra, ao contrário, a ressalta em tudo o que poderia dissipá-la. Dos sofrimentos às pequenas alegrias, tudo parece estar à altura dos olhos. “Eu estava tentando não criar um tipo interno de narrativa, mas mostrar o que eles [os personagens] estavam pensando”, comentou Haruf à época do lançamento do primeiro livro da trilogia.
No Final da tarde se aproxima do tom de Canto da planície, porém, tem cores menos saturadas. É um romance consciente de que as coisas e as pessoas passam, deixando, em alguma medida, uma sensação de permanecerem ali ou de jamais terem existido. A mãe de Victoria não é mais que uma sombra, a esposa de Guthrie é pouco além de um fantasma distante e o pai de Dena não passa de um sonho bom. É na distância que os homens, mulheres e crianças de Holt se encontram. É esse o ponto que os une e os fazem ser um só.
Silêncio
Haruf pode parecer um homem de poucas palavras, mas é no silêncio que diz o que há de mais importante. Ainda que as criaturas não representem o criador, a fala claudicante é inerente aos seus personagens, principalmente, os homens. “Em questão de mostrar suas emoções e agir sobre elas”, conformou, “os meus personagens femininos são muito mais avançados que os homens.”
É através das mulheres que Haruf explora a força e a imensidão da alma humana. Não são os irmãos McPheron que mudam Victoria, que a levam para a idade adulta, mas a garota que os traz para um traçado menos duro. É Betty quem sofre pelos filhos e não Luther que, acovardado, espera a aprovação da esposa.
Ouvindo o carro se afastar rapidamente, Betty se atirou no chão e começou a se debater, gemer e espernear. Ela chutou a mesa de centro. Luther se inclinou sobre ela, tentando acalmá-la. Vai dar tudo certo, querida, disse ele. Vai ficar tudo bem. Ela falou aquilo sem pensar. As duas crianças, Joy Rae e Richie, saíram de seus quartos e ficaram paradas no corredor, olhando para os pais, sem nenhuma surpresa pelo que estavam vendo! Após algum tempo, viraram-se e voltaram para a cama.
No Final da tarde é um livro sobre todas as coisas. Sobre estar só – e saber-se só – ; sobre a involuntariedade do destino – e o falso controle da própria vida –; e sobre o lar ser sempre um ponto de interrogação. Pode parecer contraditório que uma obra com um cenário mental tão complexo possa também estar tão cheia de um certo conforto e alguma paz.
No meio de tanta gravidade, Haruf é um escritor generoso, mesmo sem oferecer saídas fáceis. Como uma espécie de deus, espera que seus personagens possam aprender com as suas próprias falhas e seguir adiante com as cabeças minimamente erguidas. Talvez, é claro, esse não seja o percurso mais óbvio, entretanto, é o mais rico narrativa e humanamente. E é esse escrutínio, esse olhar solene, que faz da prosa de Kent Haruf algo tão interessante e peculiar.
Intimidade
Como poucos – e aí estão gente do calibre de Salinger, Faulkner, Hemingway, Philip Roth – soube medir forma e conteúdo impecáveis. Cada palavra é colocada com delicadeza, lapidada com esmero. Havia tantas maneiras de dizer que o “caixa digitou o valor na registradora e ficou esperando, olhando para o vazio, pegou a nota quando apareceu e a colocou sobre o balcão”, mas nenhuma seria como fez Haruf. Em uma frase curta e direta – um nocaute dentro da luta vencida nos rounds – a sensação de solidão e alheamento é devastadora.
Ainda assim, Kent Haruf não acreditava em inspiração. A sua literatura ia além dos mitos que rondam o processo de escrita e, por isso, suas histórias estão repletas do real – ou da ideia de real. Era comum que dissesse que não havia falta de talento para quem queria escrever. O que faltava, afirmava sem pestanejar, era falta de talento para o trabalho. “É difícil escrever e leva muito tempo para que esteja bom. A maioria das pessoas desiste antes que esteja boas o bastante”, dizia.
Nada disso faz de No Final da tarde um romance formulaico ou coisa parecida. A realidade pode ser cruel e dura cuja paisagem árida guarda uma beleza tão íntima que é incapaz de dividi-la com todos. E são esses os cenários de Kent Haruf: espaços secretos que só podem ser acessados pelos que se despem de si para encontrar a calma diante do caos.

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